terça-feira, fevereiro 2

O FACEBOOK E O TEMPO



Já algum tempo, escrevi um post sobre porque não tenho Facebook (clique para ler). Hoje quero acrescentar mais uma razão de porque não tenho Facebook e de porque não se deveria ter. Facebook é uma rede social aparentemente inofenciva. E pode até mesmo ser, mas vem se apresentando mais perigosa do que se imagina. Tirando os pseudos argumentos fundamentalista-religiosos de que o Facebook é um instrumento do "Diabo", ele, mais na verdade, é uma ferramenta do "diabo" (com letra minúscula). Qual a diferença?


Diabo com letra maiúscula é a figura mítico-antropomófica personificada do mal. Muitos religiosos fundamentalistas defendem que o Facebook seria um instrumento desse ser. Essa intuição, em tudo, não está errada se entendemos o diabo com letra minúscula. O termo diabo com letra minúscula, ao contrário do primeiro, não personifica o mal, mas, ainda sim, produz o mal. Isso porque esse termo, como já bem refletiu o grande Teólogo Leonardo Boff, deve ser entendido desde a junção de dois antigos léxicos gregos: dia + ballein.

"Ballein" é um verbo grego que significa: "lançar, atirar". Já o sufixo "dia" significa "dualismo", ou seja, coisas que existem em oposição por serem duais. Agregado ao verbo ballein, diaballein pode querer dizer "lançar em separado". Simplificando, diabo (com letra minúscula) quer dizer uma ação que divide, que desune, que separa. Ora, o que é o mal em sua essência senão aquilo que promove divisão? Nesse sentido, o Facebook é um instrumento do diabo.

Mas, "ora, - diria você leitor indignado com minha premissa - como pode o Facebook ser um instrumento da divisão se o que ele faz é juntar as pessoas????" Bem, é justamente aqui que quero acrescentar minha segunda tese contra o facebook, ademais do que já descrevi no post passado. Essa tese tem a ver com tempo.

Nós somos seres finitos, mas loucos pela infinitude. Por isso criamos deuses, medicinas, cosméticos, e facebooks. A marca insólita da finitude é a única certeza que nós não aceitamos. Por isso estamos sempre dando um jeito de recriar a nós mesmos em ambientes simbólicos como: as mitologias, a ciência, a arte, a estética e o mundo tecnólogico virtual. Qual a diferença entre a crença nos deuses e na crença em um perfil de Facebook? Antropologicamente falando nenhuma, pois ambos nos dão a sensação de estarmos de posse da infinitude. Em uma rede social, quanto mais "amigos" tivermos, quanto mais coisas estivermos de posse, quanto mais comentar, curtir, descurtir, clicar e desclicar, mais temos controle sobre o mundo. Ter um perfil em um Facebook é ter acesso ao monte eterno dos deuses, onde estou com todos de modo infinito (sem tempo e espaço)....

Em suas últimas entrevistas (que inclusive virou viral nas redes sociais), Z. Bauman afirmou - e eu concordo plenamente com ele - que o grande poder do Facebook não é o de fazer amigos, mas o poder de desfazer amizades com uma velocidade e facilidade de um "click". E o melhor, sem nenhum trauma.... Coisa que seria muito difícil no chamado mundo real. Ora, se é isso que nos empodera no Facebook, que diferença há com as crenças mitológicas de atribuir a si o poder de fazer Deus descer em forma de pão, simplesmente pronunciando palavras mágicas??? O prazer advindo do poder de ser o mediador de Deus entre os homens é equivalente ao poder advindo de se "excluir pessoas no face...". Em outras palavras, o poder do controle do infinito.

Mas o que há de tão maléfico em querer ser deus no Facebook??? Como já introduzi na minha segunda premissa, essa questão está ligada ao problema da finitude humana e, por sua vez, ao problema do tempo. Por sermos finitos, somos temporais. Ou seja, somos seres que tem início, meio e fim. Ou ainda, se assim pudermos dizer, somos seres que saimos com um defeito de fábrica: sabemos que temos uma data de validade, mas ela nunca está dada diretamente. Por sermos assim, temporais, há coisas que carregamos a vida inteira, que nunca esquecemos e que nos alimenta positiva ou negativamente. Mas há coisas que o tempo nos faz esquecer como um propósito de nos manter vivos.

O que levanto aqui é a pergunta: será que já nos perguntamos se existe uma intencionalidade em nossa memória? Será que esquecemos involutariamente ou voluntariamente? Será que esquecer tem um propósito existencial? Para mim, tomando como base a fenomenologia husserliana, o esquecimento, como um ato de consciência, possui uma intencionalidade. Se existe o ato de esquecer (noesis, em termos husserlianos), existe o que deve ser esquecido (noema); e, para além de Husserl, com alguma finalidade existencial. Certas coisas devem ser esquecidas para o próprio "bem" (sem entrar no mérito da discussão do bem) da consciência e da existência humana. Se esquecer fosse algo não essencial, como se a morte fosse algum não essencial não precisaríamos morrer ou mesmo não esqueceríamos das coisas. Esquecer é constitutivo da existência humana.

Contudo, quando nos filiamos a um perfil de Facebook, a ideia é justamente para não esquecer nada nem ninguém. Ter o máximo de amizades possíveis (quando não todos), curtir e compartilhar sem cessar são comportamentos de alguém que não quer esquecer e não quer ser esquecido. Nesse sentido, o Facebook é um instrumento que nos coloca em um movimento contra nós mesmo, pois nos coloca em atitudes de não esquecimento. Todos devem ser lembrados, amigos e inimigos do passado, amigos e inimigos do presente e amigos e inimigos do futuro. É uma quebra da temporalidade existencial humana e essa quebra trás imensos problemas de diversas ordens: psicológicos, morais, legais e existenciais.

Com o Facebook, situações traumáticas resolvidas das relações humanas podem ser trazidas à baila de modo muito abrupto, como um vulcão que repentinamente acorda de seu descanso, deixando muitos mortos e feridos. E a questão mais dolorosa é que o Facebook, com seu excesso de não esquecimento, produz essas explosões subjetivas, mas não oferece nenhum recurso de solução. Quando as coisas pupúlam no seio de sua existência, nenhuma curtida, nenhum deslike, nenhum comentário, nenhum compartilhamento, não há absoltamente nada nesse tipo de instrumento que possa restabelecer a paz interior.

Sei que muitos, lendo essas palavras, poderiam dizer: "mas a questão é saber usar o Facebook....". Sim, eu concordo com elas, o Facebook é apenas um instrumento, uma tecnologia. E tomando como minha as reflexões de Heidegger em seu discurso sobre a técnica,  ouso a me perguntar: quem realmente sabe quais são seus limites de modo a ter consciência que não se deixará ser guiados por aquilo que acha estar guiando? Diante de um mero instrumento, todos estão arriscados a ser instrumentalizados por ele, e mais, ser controlado por ele. Quem hoje tem coragem de retirar o seu perfil do Facebook e decididamente viver sem ele? Quem hoje consegue ficar uma semana inteira sem celular? São perguntas que devemos nos fazer antes de dizer que o Facebook é apenas um instrumento e que ele não pode ser culpabilizado pelas desgraças humanas. De acordo com Heidegger, o facebook como uma técnica tem sim culpa, pois sua essência (como de qualquer outra tecnologia moderna) é roubar do ser humano aquilo que o ser humano é por exclência: finito, limitado e alguém que precisa esquecer.

Assim, nem tudo precisamos lembrar, e o facebook faz a grande inversão da técnica: os meios passam a justificar os fins; em outras palavras: nos faz esquecer aquilo que nunca deveríamos esquecer e lembrar daquilo que nunca deveria ser lembrado. O facebook nos tirou o gosto da saudade e da nostalgia. Não sabemos mais sentir saudades de pessoas e nem sabemos mais o que é esquecer certas coisas para reelaborá-las e até mesmo perdoá-las (processo saudável de amadurecimento). E esse é o grande problema do Facebook: ele nos retira nossa essencial capacidade de esquecer aquilo que, por alguma razão, deve ser esquecido. Quando esquecemos certas coisas de nossas vivências, permitimos que outras possam ser lembradas e experimentadas. O esquecimento certo é uma grande oportunidade de vivermos com melhor qualidade existencial. Mas quem não quer nunca esquecer, como nos impõe um perfil de facebook atualizando infinitamente as pessoas para nós (e com elas todas nossas lembranças), não se permite viver aquilo que mais nos caracteriza como humanos: sermos possibibilidades.


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