quarta-feira, março 2

ANÁLISE DA OBRA FÉDON (64a - 67b)



Texto:
PlATÃO. Fédon. In: Diálogos / Platão; seleção de textos de José Américo Motta Pessanha ; tradução e notas de José Cavalcante de Souza, Jorge Paleikat e João Cruz Costa. São Paulo: Nova Cultural, 1973. — (Os pensadores)

3ª PARTE: A morte como libertação do pensamento[1]

Na discussão anterior, Sócrates termina sua contraposição a Cebes afirmando que: o viver filosófico (preferir a morte à vida) é, na verdade, uma busca pelos deuses. A discussão que segue é um aprofundamento dessa tese.

I. Conceituação da morte como dualismo ontológico

Platão, em vista de aprofundar sua tese de que a morte é preferível à vida, resolve iniciar seu discurso com a pergunta pela morte. Nos termos de Platão: “[a morte] Nada mais do que a separação da alma e do corpo, não é? Estar morto consiste nisto: apartado da alma e separado dela, o corpo isolado em si mesmo; a alma, por sua vez, apartada do corpo e separada dele, isolada em si mesma” (Fédon 64c, 10 – 64d,1). Assim temos que: a morte pressupõe a existência de duas substâncias que são totalmente separadas em si mesmas, a saber, a alma e o corpo. Com efeito, essa separação só efetível e percebível com a morte. Assim, a morte é a separação do corpo e da alma. Essa separação, que ocorre na morte, é conhecida como “dualismo ontológico”.

II. Discurso em favor da alma em detrimento do corpo

Com a definição de morte e a percepção de duas realidades que não são diluíveis em si mesmas, Platão resolve aprofundar um pouco mais sobre essas duas realidades e, para tanto, tece uma argumentação que coloca a alma como aquela realidade que se destaca frente ao corpo. Nos termos de Platão, temos: “... as preocupações de tal homem [do filósofo] não se dirigem, de um modo geral, para o que diz respeito ao corpo, mas, ao contrário, na medida em que lhe é possível, elas se afastam do corpo, e é para a alma que estão voltadas...” (Fédon 64e,  7 – 65a, 4).
Mas o que torna a alma preferível ao corpo? Para responder a essa pergunta, Platão lança mão de uma argumentação epistemológica e uma ontológica. Há três teses epistemológicas: 1) os sentidos são enganosos; 2) o corpo engana a alma; e 3) a alma deve isolar do corpo. E há três teses ontológicas: 1) todas as coisas têm um em si; 2) O em si não se percebe com os sentidos; 3) somente o pensamento em si pensa coisas em si. Vamos aos argumentos epistemológicos.
[1] Em primeiro lugar, Platão defende que a atividade do raciocínio em vista da sabedoria é uma atividade exclusiva da alma. A alma, portanto, busca a verdade mediante o raciocínio e essa, por sua vez, não é transmitida pelo corpo, já que os sentidos são enganosos. Assim, temos: “... quando se trata de adquirir verdadeiramente a sabedoria, é ou não o corpo um entrave? [...] acaso alguma verdade é transmitida aos homens por intermédio da vista ou do ouvido [...]? E se dentre as sensações corporais estas não possuem exatidão e são incertas, segue-se que não podemos esperar coisa melhor das outras que, segundo penso, são inferiores àquelas” (Fédon 65a, 24 – b, 13).
[2] Em segundo, Platão afirma que, além dos sentidos não serem exatos, quando a alma quer raciocinar com a ajuda do corpo, este, por sua vez, atrapalha-a, enganando-a, como pode ser conferido nesse trecho: “Temos dum lado que quando ela deseja investigar com a ajuda do corpo qualquer questão que seja, o corpo, é claro, a engana radicalmente” (Fédon 65b, 17 – 21).
[3] Em terceiro, para que alma faça seu trabalho de raciocinar é necessário afastar-se do corpo, “... ela [a alma] raciocina melhor precisamente quando nenhum empeço lhe advêm de nenhuma parte [...] mas sim quando se isola o mais que pode em si mesmo, abandonando o corpo à sua sorte” (Fédon 65c, 6 – 13).
Com respeito aos argumentos ontológicos, [1] Platão começa afirmando que todas as coisas estão ligadas ao um “si mesmo”, como vemos no trecho a seguir: “... afirmaremos a existência do ‘justo em si mesmo’, ou a negaremos? [...] E também a do ‘belo em si’ e a do ‘bom em si’...” (Fédon 65d, 6-12). Esse “em si mesmo”, define Platão, “... é, numa só palavra e sem exceção – a sua realidade: aquilo, precisamente, que cada uma dessas coisas é” (Fédon 65d, 25 – 28).
Mas por que Platão entra nessa discussão? [2] Para, mais uma vez, defender a ênfase da alma sobre o corpo, pois aquilo que cada coisa é “em si mesmo”, afirma o filósofo, não são percebidos pelos olhos, ou seja, não se capta o que as coisas são pelos sentidos.
Assim, [3] Platão sustenta que as realidades ontológicas (as coisas em si mesmas) só são pensadas por aqueles que se prepararam para tal ato, ou seja, são aqueles que apenas se utilizam do pensamento puro (do pensamento em si mesmo) para acessar a essas realidades. Essa tese tem como base a tese de Parmênides de que pensar é ser. Tal tese representa tanto o processo reflexivo da alma sobre si mesma, sem percepção sensível, quanto a afirmação de que é possível, pelo pensar puro, acessar a realidade das coisas[2]. Platão não discute se há ou não dificuldades para se chegar à coisa ela mesma, apenas sugere que, pelo pensamento puro, obtêm-se tal realidade. De algum modo, as realidades ontológicas acabam por ser objetos de um pensamento também ontologizado, i. é, que existe claramente, em Platão, duas realidades ontológicas radicalmente distintas: as realidades em si (que são verdadeiras) e as realidades sensórias (que são enganosas). A alma, separada do corpo, torna-se ela mesma, ou seja, puro pensar e deste modo pode reconhecer as coisas tais como elas são, qual seja, em sua verdade. A teoria platônica da verdade está atrelada à sua teoria ontológica. Afirma Platão: “E quem haveria de obter em sua maior pureza esse resultado [...] senão aquele que utilizando-se do pensamento em si mesmo, por si mesmo e sem mistura, se lançasse à caça das realidades verdadeiras, também em si mesmas e por si mesmas?” (Fédon 65e, 15 -66a, 8).

III. Discurso contra o corpo: a causa do mal

              Tecido os argumentos que fazem da alma melhor que o corpo (tanto do ponto de vista epistêmico quanto do ponto de vista ontológico), Platão faz um discurso contra o corpo enesse discurso o corpo assume as seguintes características: a) coisa má; b) causa de confusão; c) causa das doenças; d) causa de bagatelas; e) causa da insensatez, f) causa do mal; g) cárcere; h) causa da preguiça (Fédon 66b-c).



IV. As condições da sabedoria e a morte

              Por fim, depois de Platão demonstrar que alma leva vantagens sobre o corpo no que diz respeito às realidades epistemológicas e ontológicas, o filósofo termina sustentando que o pensamento das realidades em si, que são verdadeiras, formam a sabedoria. Essa, por sua vez, está localizada após a morte. Nesse sentido, Platão associa sabedoria e morte, ou seja, somente com a separação do corpo que a alma, em si mesma, poderá acessar a sabedoria. É necessário viver em busca dessa separação a fim de viver em busca da sabedoria, é necessário viver em busca da morte. Está, portanto, demonstrado por que o filósofo prefere a morte à vida, pois:
a)      A morte libera a alma do corpo;
b)      Liberada, a alma não é enganada pelo corpo;
c)       Não enganada pelo corpo, a alma, além de poder racionar melhor, ela encontra a si mesmo, ou seja, entra em um estado puro;
d)      Estando em “si mesma”, ela pode acessar as coisas em “si mesmas”;
e)      Acessando as “coisas em si mesmas”, ela acessa a verdade e, portanto, a sabedoria, que é a razão de ser do filosofar.





[1] Divisão feita pela Coleção os Pensadores edição de 1973.
[2] AQUINO, J. E. F. Aísthesis e anámnesis no Fédon. Especiaria-Cadernos de Ciência Humana, 2008, p.76-77.

0 comentários:

Postar um comentário