quarta-feira, março 16

ANÁLISE DA OBRA FÉDON (70c,15 - 80e)



Texto:
PlATÃO. Fédon. In: Diálogos / Platão; seleção de textos de José Américo Motta Pessanha ; tradução e notas de José Cavalcante de Souza, Jorge Paleikat e João Cruz Costa. São Paulo: Nova Cultural, 1973. — (Os pensadores)

5ª PARTE: Os contrários[1]

RETOMADA DOS ARGUMENTOS

Ao ser questionado por Cebes que a imortalidade da alma não é tão evidente e que seria necessário demonstrá-la, Platão abre três grandes argumentos para cumprir tal objetivo

1º ARGUMENTO – ARGUMENTAÇÃO LÓGICA EM FAVOR DA IMORTALIDADE DA ALMA

Platão inicia seu discurso com uma pergunta que tem por base o senso comum: “é, em suma, no Hades que estão as almas dos defuntos, ou não?” Platão, com essa pergunta, lembra que, falar de imortalidade da alma, não é uma ideia tão estranha assim, afinal, a crença do Hades aponta para essa possibilidade, ainda que sem nenhuma prova. Retomando a tradição do Hades, Platão lembra que tal tradição não só diz que as almas vão para lá, mas que de lá voltam para cá. Se isso acontece é porque a alma deve sobreviver após a ruptura com o corpo (morte). Para melhor analisar essa questão, ele decide que não seria prudente analisar casuisticamente, ou seja, olhar somente o caso da vida humana, mas deve olhar toda e qualquer vida, para saber como se comporta a vida de modo geral. E, tendo em vista que se quer saber se depois de morto sobrevém a vida, já que da vida provém a morte, é necessário então analisá-la em sua relação lógica, qual seja, se de um contrário provém outro contrário.

Com vários exemplos, Platão procura mostrar que um contrário só pode surgir de um contrário, como é o caso do maior e do menor. Só surge o maior, se antes dele existisse o menor. Com este e outros, Platão chega a um princípio geral de toda geração: “é das coisas contrárias que nascem as coisas que lhe são contrárias”. Ademais, não apenas isso se pode dizer dos contrários, mas também que há uma circularidade entre ambos, pois passa-se de um contrário a outro com a mesma facilidade que do crescer se tem o decrescer e vice-versa, do acordar se tem o dormir e vice-versa, etc. Portanto, é com necessidade que um contrário gera outro e que de um se passa para o outro e vice-versa. Ora, se assim é, viver e morrer são contrários entre si. Pela regra dos contrários, o viver deve gerar o morrer e vice e versa. Do ponto de vista da lógica dos contrários, os vivos realmente provém dos mortos, assim como estes últimos devem ser oriundos dos primeiros, o que prova, logicamente, que depois da morte, a alma sobrevive.



2º ARGUMENTO – ARGUMENTAÇÃO EPISTEMOLÓGICA DA PRÉ-EXISTÊNCIA DA ALMA

Descoberto logicamente que a imortalidade da alma é, no mínimo, razoável, Platão sustenta que tal imortalidade deve servir de base para sua epistemologia (teoria do conhecimento), já que: “é precisamente esse [que as almas dos mortos tem existência] também o sentido daquele famoso argumento que (suposto seja verdadeiro) tens o hábito de citar amiúde. Aprender, diz ele, não é outra coisa senão recordar”. Pois, sem uma base ontológica (a imortalidade da alma) a maiêutica perde sentido. Nesse sentido, Platão, que faz menção que já explicou isso antes, se propõe a reexplicar sua epistemologia, só que com um diferencial: tendo por base agora a teoria da imortalidade da alma.

A epistemologia platônica é iniciada com uma descrição do recordar. Recordar é o ato de produzir uma imagem a partir de alguma sensação. Contudo, as imagens produzidas pela recordação nem sempre são as mesmas que recebemos nos estímulos sensoriais, ou seja, que de um estímulo sensorial posso eu ter imagens semelhantes a que percebi como outras imagens ligadas ao que eu vi. Essa consciência de semelhanças ou dessemelhanças só se dá se já tive contato com o Igual em si mesmo, que me permitiu fazer a comparação. Ora, se para reconhecer essa igualdade ou desigualdade tive que ter acesso ao Igual em si, foi porque a coisa que vi não me deu essa informação, e, portanto, ela é inferior. Pelo Igual em si comparo aquilo que me foi estimulado com aquilo que recordo e percebo que o primeiro é faltoso com aquilo que recordo. A conclusão é que tais dessemelhanças ou semelhanças me foram permitidas por causa de eu já ter tido o contato com esse ser em si mesmo. Esse contanto com o Igual em si mesmo ocorreu antes de nascermos e, quando nascemos, esquecemos, sendo necessário que os estímulos nos ajudem a lembrar. Esse processo de instrução denomina-se reminiscência. E se recordamos, é porque sabíamos, e se sabíamos e ao nascer esquecemos, é porque existíamos antes de nascer.

Essa conclusão epistemológica baseada na recordação, contribui significativamente para a teoria da imortalidade da alma de Platão, pois ele indica uma das vias dessa teoria: de que dos mortos provém os vivos. Em outras palavras, a teoria da reminiscência que deveria ser corroborada pela teoria da imortalidade da alma, acaba ela corroborando para aquela, no sentido de que, a partir dela, se pode sustentar uma pré-existência da alma antes do nascer, antes de estar vivo. Assim, fica demonstrado, epistemologicamente falando, que a alma pré-existe antes de nascer.  

3º ARGUMENTO – ARGUMENTAÇÃO ONTOLÓGICA DA IMORTALIDADE DA ALMA

Ora, a reminiscência aprofundou uma das vias da teoria da imortalidade (dos mortos se oriunda os vivos); o que dizer da outra via (dos vivos se oriunda os mortos)? Para explicar essa segunda via, Platão lança mão de sua ontologia. A questão que “refutava” as tentativas platônicas era a teoria da decomposição da alma ao morrer. Para quebrar essa teoria Platão, se vale da definição de decomposição: decompor só se aplica a quem é com-posto. Ora, somente o corpo é composto, pois é visível a sua decomposição. A alma por ser invisível é unitária e não sofre decomposição. Contudo, o argumento final fica a cargo das funções que cada um ocupa quando estão juntos: ao corpo, por ser mau e causa do mau (Platão já havia discutido isso anteriormente) deve obedecer à alma, sendo assim alma tem uma natureza assemelhada ao divino que é imortal, dotada de capacidade de pensar, indissolúvel e idêntica a si mesma. Ao romper-se com o corpo a alma deve, portanto, retornar a um lugar que lhe é semelhante: o Hades.




[1] Divisão feita pela Coleção os Pensadores edição de 1973.

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