quarta-feira, março 30

ANÁLISE DA OBRA FÉDON (81a - 89a)

Texto:
PlATÃO. Fédon. In: Diálogos / Platão; seleção de textos de José Américo Motta Pessanha ; tradução e notas de José Cavalcante de Souza, Jorge Paleikat e João Cruz Costa. São Paulo: Nova Cultural, 1973. — (Os pensadores)

6ª PARTE: O destino das almas/A função da filosofia[1]

 I- CRITÉRIOS PARA O NASCIMENTO DA ALMA

Platão adota o critério moral para estabelecer o modo dos novos nascimentos – nos termos do filósofo: “Ora, aquilo a que elas assim novamente se juntam, deve ser, como é natural, possuidor dos mesmos atributos que as distinguiam no curso de sua vida” (Fédon, 81e, 4-8) – como se vê:
a) Para os Vorazes, impudicos e beberrões: asnos ou semelhantes;
b) Para os injustos e tiranos: lobos, falcões e milhafres;
c) Virtuosos social e civicamente, temperados, justos, mas sem serem filósofos: abelhas, vespas, formigas ou até humanos honestos;
d) Filósofos: não voltam, vão para a divindade.

II- FUNÇÃO E MÉTODO DA FILOSOFIA

Segundo Platão, a filosofia tem a função de libertar da ignorância por meio da explicação racional, de modo que o indivíduo volte para si mesmo e não se deixe guiar pelo outros, pois a filosofia é um conhecimento examinado e seu método é direto, sem mediações sensíveis, das coisas inteligíveis. Nos termos do autor: “[...] a filosofia entra com doçura a explicar-lhes as suas razões, a libertá-las, mostrando-lhes para isso de quantas ilusões está inçado o estudo que é feito por intermédio dos olhos [...] persuadindo-as ainda a que se livrem deles, a que evitem deles servir-se, pelo menos quando não houver imperiosa necessidade; voltem para si, não confiando em nada mais do que em si mesmas, qualquer que seja o objeto de seu pensamento [...] as coisas que são examinadas por meio de um intermediário qualquer nada possuem de verdadeiro, e pertencem ao gênero do sensível e do visível enquanto o que elas vêem pelos próprios meios é inteligível e, ao mesmo tempo, invisível” (Fédon 83a 6 – 83b 7)

III- ARGUMENTO DE SÍMIAS CONTRA PLATÃO

Símias, de certo modo, questiona o conceito de alma proposto por Platão. Contra certa tendência parmenisidiana de seu mestre Sócrates, Símias retoma velhas concepções pré-socráticas como a teoria da unidade dos contrários usada tanto por Anaximandro quanto por Herácito. Símias argumenta contra a infinitude da alma mediante a ideia de que a alma, vista desde a ideia da unidade dos contrários, se desfaria certa vez que o corpo, possuidor dos contrários, se decompusesse (Fédon 85e 9 – 86d 7).

IV- ARGUMENTO DE CEBES

Cebes aceita o argumento platônico da preexistência da alma, contudo nega a possibilidade de sua existência depois da morte de modo absoluto. Em partes, a alma consegue escapar da morte na separação com o corpo, por outro lado, quem garante que a alma, em cada separação, não se desgaste? Retomando, em certa medida, a ideia da deflagração heraclitiana, a alma, à medida que passa por várias mortes, vai se desgastando, chegando a um momento em que ela não se subsiste mais depois da morte. A questão é que nunca se sabe quando isto ocorrerá, dando sempre a sensação de que a alma vai nascer novamente. Esta incerteza da consistência da alma e de seu inesperado desgaste, questiona a tranquilidade que Sócrates justifica estar diante da morte e toda a discussão a respeito da postura filosófica (Fédon 86e 17 – 88b)



  




[1] Divisão feita pela Coleção os Pensadores edição de 1973.

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