terça-feira, março 15

NOTAS SOBRE A VALIDADE FORMAL DA LÓGICA NO PERÍODO INICIAL DO PENSAMENTO DE HUSSERL



Se as críticas de Frege foram ou não as causas fundamentais para mudança de posicionamento de Husserl, de uma postura psicologista (mais alinhada a Brentano) para uma postura não psicologista, somente ele mesmo poderia dizer. O certo é que, depois delas, Husserl inicia um processo de distanciamento das teses psicologistas. Este se deve ao fato de que a intenção husserliana de fundar as ciências - em especial, as ciências matemáticas como aparece em sua obra Filosofia da Aritmética (1891), a partir da descrição dos processos subjetivos do aparecimento da objetividade (neste caso, o número) - permaneceram todos presos à patente empírica, i. é, dependiam de certas particularidades da experiência.

Esse "fracasso" inicial, se é que assim podemos dizer, não o distanciou de sua questão fundamental - questão essa que o colocou distante dos logicistas, como Frege: os fundamentos das ciências, a objetividade, não devem estar desvinculados dos processos subjetivos que os fazem aparecer para o sujeito. Ou seja, Husserl não quer sustentar uma objetividade em si mesma (como fazem os logicistas), nem quer admitir que a objetividade está diluída na subjetividade cognitiva (como fazem os psicologistas), pelo contrário, quer encontrar que relações guardam a objetividade e a subjetividade. Para tanto, dois caminhos eram necessários: investigar melhor o conceito de intencionalidade usado por Brentano (feito preliminarmente na obra de 1984 Objetos intencionais) e discutir melhor a natureza da lógica, ambas aparecem nas Investigações lógicas (1900-1901). A primeira parte investiga a natureza da lógica e a segunda parte a teoria do conhecimento (que inclui a discussão da intencionalidade). Neste post, quero apenas me debruçar sobre o primeiro aspecto.

Husserl lê o panorama das discussões entre psicologistas e logisicistas da seguinte forma: 

1. Para os logicistas, a lógica é uma ciência normativa, uma tecnologia (Kunstlehre) prática que procura mostrar como o pensamento deve ser. Com essa natureza normativa, ela escapa da subsunção que o psicologismo quer efetuar na lógica.

2. Para os psicologistas, a lógica e psicologia não estão em níveis diferenciáveis, já que só se pensa corretamente quando se pensa aquilo que a coisa é, tal como ela é. Seria impensável regras vazias que não levam consideração a apreensão correta dos objetos.

Ambas as posturas não satisfazem as condições pelas quais Husserl acredita estar a objetividade. Para ele, a lógica, em primeiro lugar, não deve ser identificada aos atos de julgar (juízos) como fazem os psicologistas, pois existe uma diferença entre o ato de julgar (o seu conteúdo) e o juízo em si mesmo (a sua forma). Os atos de julgar dependem de leis causais semelhantes às leis da natureza e os juízos em si mesmo estão ligados às leis que permitem julgar com um caráter ideal. Essas leis, que Husserl as considera como formais, exprimem uma verdade que exclui as possibilidades, problema esse encontrado entre os logicistas, já que as leis formais conteriam uma legalidade para todos os fatos do ponto de vista do conteúdo e da fundamentação.

Assim, a lógica não pode ter uma natureza nem psicológica nem normativa, mas formal. Não podem ser psicológicas porque a psicologia é apenas uma ciência de fatos e tem como ponto de partida a experiência, engendrando suas leis de meras generalizações ou regularidades na coexistência ou sucessão de fenômenos psíquicos. Também não podem ser normativas, pois as proposições normativas que constituem suas leis carecem de fundamentações. Em síntese: as leis da lógica não são leis de possibilidades teóricas (normativa), nem leis do objeto em geral (psicológica), mas leis do objeto possível (formal). Observa-se, com essa definição da natureza da lógica, sua tentativa de criar uma terceira via.

Assim, a discussão da natureza lógica deve pretender explicar a possibilidade da experiência da evidência que garante legitimidade independentemente de todo e qualquer julgamento. Exemplifica Husserl: só se garante a verdade de "(a+b) = (b+a)" se se compreende a independência da propriedade comutativa da adição. Com efeito, haveria dois tipos de evidência, pelo menos: uma evidência lógica e uma evidência intuitiva. E, portanto, julgar com evidência é bem diferente de julgar a partir da evidência do julgado. A evidência do juízo não pode estar na evidência daquilo que sofrerá o juízo, ou, em outras palavras, a evidência do juízo não é o mesmo que a verdade do que é julgado como evidente. Como exemplo, Husserl usa o princípio de não-contradição. Segundo o filósofo, esse princípio não é lógico pelo fato de que empiricamente ou intuitivamente se pode aceitar o que ele enuncia. Mas, pensado a partir da lógica formal, deveria ser uma tautologia, haja vista que ao afirmar: "se é verdade que p é p, então é falso que p não seja p", não se afirmaria nada mais que ele mesmo, e isso sempre e independentemente de seus objetos.

A lógica formal pensada por Husserl se distingue do sentimento de evidência da psicologia e se aproxima da evidência matemática, ambas possuem a mesma ideia de verdade caracterizada pela apoditicidade fundadas na convicção da existência de unidades de valor situadas no domínio intemporal das ideias. Mas de onde retira sua convicção lógica? Resposta: do conceito de formal.

A lógica, como ciência da forma, enuncia leis que possam ser aplicadas a qualquer ciência de objetos. Essa forma deve ser compreendida como uma objetividade que não se obtém por generalização, mas como uma condição subjetiva que permite que o objetivo se constitua enquanto tal. Essa forma, ademais, é a mantenência de uma constante com respeito aos objetos. É o que Husserl denomina de "qualquer coisa em geral" que transcende o conteúdo dos objetos. Para melhor compreender o que é o formal em Husserl, deve-se retomar a discussão que o filósofo faz a respeito da analiticidade.

Kant já dizia que existem dois tipos de juízos: um analítico e um sintético, sendo o primeiro caracterizado pelo fato de o predicado estar incluso no sujeito e o segundo divergir disso. Ora Bolzano já havia enunciado um equívoco semântico cometido por Kant nessa divisão, qual seja, que há uma falsa identificação entre propriedades dos objetos e características dos conceitos pela simples explicitação das primeiras e o prévio conhecimento das últimas. Em outras palavras, não é o modo de relacionar as propriedades dos objetos e as características dos conceitos a priori que torna-o verdadeiro, mas sim as razões dessa veracidade.

Em visto disto, de evitar tais equívocos, é que Bolzano procura explicar o que é a analiticidade. Segundo ele, quando uma ou algumas, mas não todas, podem ser arbitrariamente sujeitas a um processo de variação sem que, com isso, se altere o valor de verdade desta proposição, estamos diante de uma proposição analítica. Desse modo, Bolzano transforma o analítico em uma característica da verdade do juízo e não em conteúdo da representação. A analiticidade não pertence às características do conceito (representação) tal como pensava Kant, mas à constância da verdade de um juízo, em meio às variações da representação.

Essa discussão do analítico de Bolzano é assumida por Husserl que afirma: é analítica toda a proposição que comporta uma verdade plenamente independente da natureza da objetividade que nelas se exprime, e em que a matéria objetiva se pode substituir pela forma vazia do "qualquer coisa", com exclusão de toda posição de existência. Com efeito, Husserl identifica a formalidade necessária para as regras da lógica, emancipando-a da psicologia e da normativa.

Referência
MORUJÃO, C. Husserl e a "verdade pela forma" (da Filosofia da Aritmética às Investigações Lógicas). Philosophica. n.16, Lisboa, 2000, pp.47-59.         

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