quarta-feira, abril 6

ANÁLISE DA OBRA FÉDON (89b - 95a 4)



Texto:
PlATÃO. Fédon. In: Diálogos / Platão; seleção de textos de José Américo Motta Pessanha ; tradução e notas de José Cavalcante de Souza, Jorge Paleikat e João Cruz Costa. São Paulo: Nova Cultural, 1973. — (Os pensadores)

7ª PARTE: Fédon retoma a narrativa/Resposta a Símias[1]

1) Elabore um resumo do que podemos considerar o ‘Segundo Discurso Platônico’, até as refutações de Símias e Cebes[2].

1. Depois da discussão sobre o viver filosófico e sua relação com a morte, Platão escreve um segundo discurso que tem como tema central a ‘imortalidade da alma’. A primeira parte deste segundo discurso se inicia com a justificativa dada por Platão para ter que demonstrar racionalmente a imortalidade da alma, já que tal ideia já tinha sido afirmada no primeiro discurso. Dentre as justificativas, destaca-se o fato de que Platão não tinha tratado de modo sistemático a questão da imortalidade, e sua aceitação não é evidente. Ademais, lembram seus interlocutores que existem outras teses que defendem o contrário. 

2. Uma vez justificada a necessidade de uma demonstração racional, Platão escreve um grande diálogo e neste apresenta três grandes argumentos em favor de sua tese. [A] Em primeiro lugar, o filósofo quer mostrar que a tese em favor da imortalidade da alma não prescinde da razoabilidade, ou seja, é uma tese que está assegurada logicamente. Para tanto lança mão do princípio geral dos contrários, cuja circularidade lógica permite sustentar tanto a mútua geração (um contrário só se oriunda de outro) quanto a mútua acessibilidade (de um contrário de pode passar a outro). Neste sentido, vida e morte, enquanto contrários, são necessariamente implicáveis: da morte se passa para vida (preexistência) e da vida se passa para a morte (pós-existência). [B] O segundo argumento procura explicitar aquilo que a possibilidade lógica já admitiu. Retomando a tese da recordação (reminiscência), o filósofo quer sustentar epistemologicamente a preexistência da alma. O fato de que o conhecimento pertencente à alma tem por natureza o ato de recordar, em outras palavras, que conhecer é lembrar-se de algo já previamente conhecido (pois do nada, nada se pode conhecer); calca a certeza de que tal alma preexistia em algum lugar no qual o que se podia conhecer era acessível em si mesmo. Esta existência, por sua vez, não poderia ser a mesma da atualidade, pois o que se conhece por meio dos sentidos, o faz de modo inferior àquilo que foi recordado. Esta dessemelhança entre o percebido e o recordado, indica que o recordado não pertence a esta vida atual, mas a uma anterior na qual a alma já o conhecia. Por esta razão, Platão sustenta que a alma preexiste antes do nascimento.  [C] Para finalizar o argumento, falta o outro lado da moeda, ou seja, falta demonstrar racionalmente que a alma, ao separar-se do corpo, permanece existindo. Esta demonstração aparece no texto mediante um argumento ontológico da descrição dos atributos essências que compõe a alma. É, portanto, essencial para compreender a natureza da alma saber que ela é indivisível e sua indivisibilidade, ao contrário do corpo, não pode sofrer decomposição. Seria absurdo decompor o que por natureza não tem compostos. Ademais a indivisibilidade da alma a faz semelhante aos deuses, que por ventura são imortais. Pela descrição ontológica da indivisibilidade da alma semelhante aos deuses, Platão sustenta sua imortalidade. Em síntese: afirmar a imortalidade da alma implica tanto na demonstração da preexistência quanto na da pós-existência.

3. A demonstração da imortalidade da alma exige também uma fala sobre o ‘lugar’ que alma estava antes de nascer e para onde vai depois de morrer. Este lugar, como já fora falado desde o início da obra, é o Hades. Todavia a única informação que neste momento nos dá Platão é sobre os critérios dessa migração que alma passa (da vida para a morte e da morte para vida). Garante o filósofo que este tem por base o comportamento da alma. Bons comportamentos garantem bons retornos à vida (animais socialmente origanizados, tais como abelhas, vespas e até mesmo em humano novamente) e maus comportamentos são compensados com nascimentos menos prestigiosos (asnos, raposas, falcões, etc). Por outro lado, uma vida dedicada à filosofia garante o acesso à divindade, prescindindo outros nascimentos. Se este é o prêmio que a filosofia oferece a quem a ela se dedica, Platão, mais uma vez, se preocupa em descrever a função e o método do saber filosófico: um saber que liberta da ignorância em função das razões oferecidas pelo exame direto das coisas em si mesmas.

4. Como encerramento de seu segundo discurso, Platão resolve apresentar outras dificuldades que suas demonstrações ainda não tocaram. Para tanto, apresenta duas refutações, uma, possuindo como interlocutor a personagem Símias, e outra de Cebes. Símias e Cebes questionam respectivamente a essência indivisível da alma e sua indissolubilidade. [A] Para Símias, Platão responde que, se alma não fosse indivisível, sendo, desta feita, composta, seria difícil explicar concomitantemente a presença de vícios e virtudes nela. Isto porque entes compostos (como uma harmonia) são regidos por aqueles mesmos elementos que os compõem; e, se alma é composta, como entender que os compostos se afinam (harmonizam) em virtudes e vícios ao mesmo tempo? Ou seria necessário pensar que há dois tipos de harmonização nestes compostos ao mesmo tempo, o que seria absurdo, ou que as almas fossem apenas virtuosas por serem harmonizadas, prescindindo dos vícios. Tais dificuldades atestam para o fato de que a indivisibilidade ainda é o melhor argumento. Por outro lado, o questionamento de Cebes faz duas funções: fecha o discurso, sem nenhuma resposta relevante; e abre o terceiro discurso de Platão.

2) Segundo Platão, Símias e Cebes estão se comportando como verdadeiros sofistas. Mostre as características que Platão considera possuir um sofista e quais as diferenças para com sua filosofia.

As refutações de Símias e Cebes que aparecem no final do segundo discurso platônico têm uma dupla finalidade pedagógica: (a) apresentar as teorias que fazem interlocução com as suas, mormente, contradizendo suas teses; e (b) tecer algumas considerações críticas à sofística. No que diz respeito à segunda, Platão, de algum modo, teme que suas especulações sejam vistas como meras retóricas e, por conseguinte, apresenta suas críticas à arte sofística. Símias e Cebes, no diálogo, incorporam a filosofia sofista e, como tal, recebem as críticas de Platão pela boca de Sócrates. [a] Em primeiro lugar, a grande característica denunciada pelo discípulo de Sócrates é a recorrente inconstância de posicionamento do sofista. Tal como relata muito bem Platão, Símias e Cebes acompanham o raciocínio platônico e em nada se opõem a ele, pelo contrário, em tudo concordam. Somente ao final, depois de aparentemente convencidos, é que ambos se manifestam de modo contrário. Isto acaba se tornando um estilo argumentativo que se atém muito mais nas investidas de caráter especulativo e formal, tentando emparelhar os contrários (argumentos a favor e argumentos contra), do que ter uma preocupação na demonstração da verdade. [b] Assim proceder, que nos termos platônicos se diz, “demonstrar o pró e contra” (ora é, ora não é) engendra uma segunda característica: a afirmação da absoluta ausência de base e certeza como a verdadeira sabedoria. Em outras palavras, é a defesa do ceticismo, misólogos, em termos platônicos. [c] A satisfação em desconstruir argumentos é tomada como a única certeza, não sendo levados em conta – e aqui se encontra a terceira característica – os limites pessoais frente à arte de demonstrar por argumentação. Neste sentido, o ceticismo é afirmado e sustentado por não perceber ou levar em consideração os limites inerentes ao sujeito, [d] mas pelo contrário, se culpabiliza a ausência da verdade à própria razão.

3) Refaça os passos da argumentação platônica para contra-argumentar Símias.

(A) Um elemento composto deve:
- Ser guiado pelos elementos que o compõem;
- Sofrer as modificações (grandeza, tenacidade, extensão) que são acometidos os elementos que o compõem;
- Estar “afinado” aos elementos que o compõem.

(B) Primeiro problema da analogia
- existe variação ou modificação relacionado aos elementos que a compõe, como mais alma ou menos alma?

(C) Segundo problema da analogia
- como explicar a existência de vícios e virtudes presentes na alma?
- haveria de dizer que existe dois tipos de harmonias dentro da alma?
- ou deveria dizer que alma boa está afinada (harmonizada) e a alma ruim é desprovida de afinação?
- ou ainda deveria dizer que as almas não possuem desarmonia, pois sua essência é a harmonia?

(D) Terceiro problema da analogia
- Só existem almas boas?

(E) Quarto problema da analogia
- se a alma é composta, deve ela ser regida pelos elementos que a compõem. Mas, não é justamente a lama a instância de resistência ao corpo?
- não seria a alma que rege a si mesma e ao corpo?

(F) Argumento final
- Até Homero, o mais famoso dos poetas, não defende a visão da harmonia

Logo: a alma não é composta, não é uma harmonia.




[1] Divisão feita pela Coleção os Pensadores edição de 1973.
[2] Podemos até agora reconhecer dois grandes discursos no Fédon, qual seja, ‘sobre o viver filosófico’ e ‘sobre a imortalidade da alma’. O primeiro pode ser conferido no fichamento 04.

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