sexta-feira, abril 29

ANÁLISE DA OBRA FÉDON (ÚLTIMA PARTE)



9ª PARTE: A Ideia/O problema dos Contrários e as Ideias[1]

1) Ao contrário dos naturalistas, como Platão explica a causa das coisas?

Argumenta Platão que: “Se alguém me diz por que razão um objeto é belo, e afirma que é porque tem cor ou forma, ou devido a qualquer coisa desse gênero – afasto-me sem discutir [...] estou firmemente convencido, de um modo simples e natural, e talvez até ingênuo, que o que faz belo um objeto é a existência daquele belo sem si, de qualquer modo que se faça a sua comunicação com este” (Fédon 100c 16 – 100d 9).

2) Faça uma pesquisa sobre como Platão explica a tese da “participação” nas ideias.

“Na tentativa de solucionar a contradição que invade o discurso desde que ele se esforça por pensar o real, a teoria das Ideias funciona como uma purificação. A Ideia é marca característica do pensamento de identidade que se impõe a si mesma e que existe por si mesma enquanto identidade e sobre a qual se poderá fundar o conhecimento dos objetos que participam dela e conferindo estabilidade ao lógos. Platão observa que, mesmo nos seres que mudam o tempo todo (sensível), há a permanência de imobilidade suficiente para que se possa dele ter conhecimento e que tal imobilidade ou estabilidade não deriva do sensível, mas de um outro tipo de realidade, a inteligível. As dificuldades que o problema da participação implica iniciam-se na passagem 130e-131c do Parmênides em que Sócrates exibe sua compreensão sobre as Ideias. Para ele, as coisas participam de Ideias que lhe conferem a possibilidade de denominação. Mas o velho Parmênides lhe questiona se é a Ideia toda ou somente uma parte dela que participa daquilo que participa, permanecendo una em cada um dos seres múltiplos. Se assim é, então, objeta-lhe o eleata, ela ficaria separada de si mesma, o que para Sócrates é um absurdo. Não poupando nenhuma crítica à sua própria teoria, e preocupado em eliminar antecipadamente as soluções falsas, Platão considera precisamente as duas possibilidades, opondo a elas, de maneira característica, o mesmo argumento derivado de um argumento conhecido sob o nome de “terceiro homem”. O raciocínio é o seguinte: se a Ideia é apenas o caráter comum de uma multiplicidade sensível, percebido por uma operação do espírito, é preciso explicar como o reconhecimento desse caráter comum, que reúne a Ideia e as coisas que dela participam, não dependem, por sua vez, de alguma Ideia superior, a única capaz de impor a todos esse mesmo caráter e assim por diante até o infinito. em termos platônicos, o argumento do “terceiro homem” não é um erro, pelo absurdo da regressão ao infinito para onde ele mostra que conduz a contradição de uma identidade pensada fora da relação, mas que é preciso fazer entrar numa relação; a da methéxis, apenas ilustra à sua maneira o que a primeira hipótese do Parmênides mostrará, a saber, a incoerência de um pensamento de identidade estrito que, por força de querer separar o seu objeto da relação, chega a concebê-lo como pura ilimitação e, portanto, definitivamente, como inefável. O absurdo da regressão ao infinito, que tem como consequência a ilimitação de uma identidade indizível e, por isso, inexistente, foi muito bem concebida por Platão como um argumento dirigido contra o pensamento de identidade que sustentava a teoria das ideias; pleiteia, a contrario, o restabelecimento da relação, até entre as próprias ideias, pois através dela vêm a limitação e a possibilidade de dizer uma identidade que, determinada, seja realmente identidade enquanto tal.CABRAL, João Francisco Pereira. "Participação, Imitação, Formas e Ideias em Platão"; Brasil Escola. Disponível em <http://brasilescola.uol.com.br/filosofia/participacao-imitacao-formas-ideias-platao.htm>. Acesso em 13 de abril de 2016. 

“Participar não é um ser identificar-se com o outro, pois a expressão pareinai utilizada por Platão, inclusive no Fédon, é usada para simples participação. É a presença de um atributo e não a identidade do sujeito e do atributo (BROCHARD, 1940, p. 133). Sendo assim, podemos considerar que o ser não é movimento, nem repouso, nem inteligência, alma... mas essas coisas participam do ser, unem-se a ele. “‘Unir sem confundir’, eis no que constitui a participação” (IDEM, ibidem). Se os amigos das Idéias fazem a exclusão, Platão faz a inclusão de tudo isso no “ser total”. As Idéias continuam distintas e imutáveis, porém podem se aproximar e se mesclar a outras coisas. As Idéias não se alteram, mas o senso comum introduz o movimento no mundo real. Ser e não-ser, tanto um como o outro, apresentam dificuldades para nós em nosso entendimento sobre eles. “Nem o repouso nem o movimento resulta da natureza do ser; todavia, é imprescindível que o ser esteja em repouso ou em movimento, que é um ponto sobre o qual Platão não transige: não existe termo médio entre esses dois termos” (BROCHARD, 1940, p. 135). Há níveis de participação; desse modo, há gêneros “imparticipáveis”. Isso nos leva ao que Brochard nomina de “o ponto chave de todo o sistema platônico” (IDEM, p. 136): a teoria dos cinco gêneros, expressa no Sofista (Cf. PLATÃO. Sofista, 245 c; e seguintes). O ser, o movimento e o repouso nos levam ao mesmo e ao outro e, disso, temos os cinco gêneros, visto que dos três primeiros cada um é si mesmo e diferente dos outros, donde surgem o mesmo e o outro. Portanto, se o ser pode se unir ao movimento e ao repouso, isso não significa mixis. Unir-se não é deixar de ser o que se é, ou, em outras palavras, participar não quer dizer perder-se de si mesmo. Pelo contrário, é pela alteridade que pode-se saber do mesmo e do outro.” (SOUSA, Mauro Araujo de. Brochard e Platão: sobre a teoria da participação (méthexis). Revista Eletrônica da FIA Academos, v.I, n.1, jul-dez, 2005, pp.70-79, p.77).

3) Segundo Platão, como explicar que algo possa ser grande e pequeno?

Algo só pode ser grande se e somente se ele participa da grandeza em si e o mesmo se dá com a pequenez, e nunca pela natureza deste algo. Assim, ele só pode ser grande e pequeno, no meio das duas, quando a grandeza em si, a qual este algo participa, é ultrapassada pela pequenez participada por um segundo ou quando a pequenez que este algo participa é ultrapassada pela grandeza de um segundo. Ou seja sempre em função da grandeza em si e pequenez em si.

4) Platão põe na boca de um desconhecido uma possível contradição entre a geração dos contrários e a teoria dos contrários. Como ele resolve isto?

A teoria anteriormente discutida da geração dos contrários se referia às “coisas” (entes) que possuíam a qualidade dos contrários. Em outras palavras, o “amanhecer”, enquanto ente que possui a qualidade dos contrários (amanhecer-entardecer) só é gerado (só surge) de um entardecer, pois somente com a anulação do amanhecer é que vem o entardecer. Neste sentido, a teoria dos contrários, inversamente, não está falando dos entes que possuem os contrários, mas dos “contrários em si mesmo”, da origem destas ideias contrárias. Por serem ideias em si, elas são eternas e sua origem é independente.

5) Explique a Teoria dos Contrários

Uma ideia contrária, tal como denomina Platão, é aquela que não admite que seu contrário coexista com ela, pois na presença de seu contrário, ou a esta ideia foge ou ela deixa de existir (sendo destruída pelo seu contrário). Ora há entes que participam diretamente destas ideias dos contrários em si mesmo, pelas quais conferem seus nomes, como o frio e o calor, o par e o impar, o bem e o mal, etc. Por outro lado, Há entes que mesmo não sendo contrários uns aos outros ou em si mesmo, ainda sim participam da ideia dos contrários, implicando-os. É o caso do ente três (exemplo de Platão). Ele, em si mesmo, participa da ideia de três em si, e não é contrária a nenhuma outra ideia. A coisa três não implica nenhuma contrariedade, senão sua própria negação (não-ser-três). Ademais, ele participa da ideia de ‘impar’, que em si mesmo é um contrário. Três, por sua natureza, é uma ideia impar (participa da ideia de impar em si mesmo). Esta participação na ideia de impar em si, por sua vez, implica que a coisa três carregue um contrário, ou seja, rejeite como fosse seu próprio contrário a ideia de par em si mesmo. Assim, por participação, a coisa três, que não é em si mesmo um contrário, carrega uma contrariedade essencial. Esta teoria pode ser aplicada a todas as demais coisas.

6) A partir da teoria dos contrários, como Platão demonstra a imortalidade da alma?

Partindo da teoria dos contrários – e isto é muito interessante, pois no discurso anterior o filósofo partiu das coisas que possuíam a contrariedade (teoria da geração dos contrários) para demonstrar a imortalidade da alma, agora ele procura partir das ideias contrárias em si mesmas (teoria dos contrários) para fazer o mesmo – Platão explica que, assim como os entes que necessariamente não são contrários participam indiretamente dos contrários em si mesmo, tal ocorre com a alma. A alma não é um contrário em si mesmo, sua diferença com o corpo não justifica tal contrariedade. Porém ela participa de uma ideia contrária em si mesma, qual seja, a vida. Ora, esta participação na ideia da vida implica que a morte seja contrária à morte e, por rejeição à morte, a alma é imortal. Com efeito, se a morte pode ser um contrário à alma, pela participação da ideia de vida, ou a alma foge ou é destruída quando a morte se aproxima (conforme reza a teoria dos contrários). Seria absurdo dizer que a alma, enquanto contrário da morte, isto é, imortal, seja destruída pela morte, pois a imortalidade implica em indestruição. Portanto, a alma é imortal e indestrutível, já que quando a morte a alcança, pela teoria dos contrários, ela lha subsiste e foge para o Hades. 

7) Faça um resumo do “Terceiro Discurso Platônico” a respeito da prova da prova da imortalidade da alma por meio de sua teoria das ideias

 1. O terceiro discurso platônico que “põe fim” à discussão da imortalidade da alma inicia com a pergunta de Cebes ao final do segundo discurso, ou seja, sobre a causa da geração e da corrupção. Na verdade Platão reconhece que a pergunta de Cebes a respeito da indestrutibilidade da alma após as várias mortes remete à pergunta pela “causa” de todas as coisas inclusive da alma. Para dar uma resposta satisfatória a Cebes, Platão precisa, por esta mesma razão, tecer considerações sobre a teoria da causa antes de reconsiderar sua tese sobre a imortalidade da alma.
2. Deste modo Platão procura fazer uma leitura geral das teorias existentes no mundo grego a respeito da causa. Sem muita preocupação com a fidelidade ou com uma sistematicidade, Platão comenta sobre várias teorias defendidas pelos naturalistas como a de Heráclito, Anaxímenes e Demócrito, lembra também dos eleatas como Pitágoras e Zenão, até mesmo de teorias abiogenistas, estéticas (cânon das oito cabeças) e médicas (é o caso de Alcméon de Crotona). Todas elas, segundo ele, defendidas por ele em tempos de outrora. Contudo é com Anaxágoras que Platão retira a sua intuição primordial e sua critica aos demais. Apesar da crítica feita a Anaxágoras, é na teoria do espírito deste filósofo que Platão percebe que a causa não pode ser encerrada na matéria ou em alguma de suas propriedades, mas deve estar fora dela.
3. Dito isto Platão apresenta a sua teoria da causa que se encontra encerrada na teoria das ideias. A causa das coisas não está nas propriedades materiais, mas na participação que estas coisas têm com as ideias em si. Entretanto, Platão, alegando estar citando uma teoria já defendida e comentada em outros textos seus, não descreve como acontece esta “participação” das coisas nas ideias. Pressupondo-a, o filósofo se dispõe a descrever o que nesta teoria seria importante para sustentar a teoria da imortalidade da alma: a teoria dos contrários.
4. A teoria dos Contrários é parte da teoria das ideias e sua função no discurso é mostrar como que as coisas contrárias (lembradas no discurso passado mediante a teoria da geração dos contrários) se fundamentam na ideias dos contrários. Pela teoria dos contrários, coisas que não são contrárias podem assumir uma contrariedade por participação nos contrários em si. De outro modo não seria possível dizer que o número três é impar, já que três não é um contrário, mas implica uma rejeição à ideia de par. O que Platão intenta é fazer uma conexão entre ideias por ‘participação’, de modo que se demonstre que a ideia de alma não encerra contradição quando ligada à ideia de imortalidade. Assim, pela teoria dos contrários, a ideia de alma, que não é um contrário em si mesmo participa também da ideia de imortalidade pelo termo médio vida. A vida por ser um contrário (vida-morte) tem participação direta com a alma e esta última, em decorrência da teoria dos contrários, participa da contrariedade daquela, ou seja, rejeita a morte. Assim a alma como participante da vida (e contrário da morte) é imortal e indestrutível. Com esta conclusão, Platão acredita ter dado fim à discussão a respeito da imortalidade da alma.




[1] Divisão feita pela Coleção os Pensadores edição de 1973.

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