terça-feira, abril 19

DIFICULDADES INERENTES À ANÁLISE FENOMENOLÓGICA


Comentários ao Terceiro parágrafo da Introdução da Segunda parte das Investigações Lógicas de Husserl.

Husserl afirma que há uma equivalência entre as dificuldades de aclaração dos conceitos lógicos e as dificuldades inerentes à análise fenomenológica, seja sela das vivências puras ou empíricas. Contrapondo aos psicologistas que apontam como dificuldade da análise fenomenológica das vivências empíricas a "percepção interna", à medida que estas são tomadas como a fonte do conhecimento, Husserl argumenta, em primeiro lugar, que tal distinção (percepção interna e externa) são equivocadas. Por segundo Husserl se propõe a discutir as verdadeiras dificuldades inerentes à fenomenologia.

1. A primeira dificuldade inerente à análise fenomenológica é a mudanças de direção exigida por este tipo de análise. Há, portanto, nesta análise um "direcionamento contranatural da intuição e do pensamento". Isto significa que aquele que se propõe a uma análise fenomenológica terá, necessariamente, de sair do modo natural da intuição e do pensamento - que está entregue à "consumação" dos atos edificados de diversos modos - e deixar de atribuir aos objetos visados no sentido desses atos o ser e suas determinações. Em outras palavras, a primeira dificuldade de todo aquele que inicia nos estudos fenomenológicos é deixa-se levar pelo seu método. É impossível compreender a análise fenomenológica vinculado ao tão comumente aceito modo realista de compreender o mundo, isto é, de estar ligado à crença de que à nossa volta e por meios de nossos sentidos, chegam evidências de entes que existem independentes a nós. De crer que o que percebemos à nossa volta e o que chega até nós são coisas que, sem muito refletir, simplesmente existem porque elas podem ser vistas, pensadas, refletidas e categorizadas como conhecimentos teóricos.

Neste sentido os objetos de análise da fenomenologia são os "atos" e "seu teor de sentido imanente". Devemos, assim, dirigir nosso olhar, não para aqueles objetos já, antecipadamente, considerados como efetivos em algum modo de ser; mas, ao contrário, para aqueles "atos" que tornam possível os próprios objetos, que tornam possível reconhecer sua efetividade e objetividade. Ainda sim, embora se mude o direcionamento do olhar, se pode incorrer em equívocos, pois pode-se substituir "os atos" pelas "determinidades atribuídas aos objetos". Isto significa as "aparições" ou as "significações" imanentes (vivências empíricas fáticas).

2. A segunda dificuldade está no fato de que na passagem da "consumação ingênua dos atos" para a "atitude reflexiva" os atos primeiros se alteram. Para que se possa determinar a natureza de tal mudança e chegar a analisar, por meio de "identificação repetida", é necessário "apresentá-los" e "comunicá-los". Esta apresentação deve ser feita mediante uma "expressão" que deve ir além das matizações adaptadas à objetividade natural. Esta expressão deve denominar o intencional que pertence aos atos de modo que possa intuído. Do mesmo modo, somente uma consciência treinada e exercitada a efetuar descrições puras será capaz de reconhecer aquilo que a evidência foi capaz de identificar. Isto significa que não basta o trabalho da análise fenomenológica de reconhecimento das conexões essenciais, mas é preciso saber expressá-la de modo tal que não recaia nos moldes da objetividade natural, mas que mantenha o significado intencional a fim de que alguém que esteja treinado neste tipo de análise consiga decodificá-lo.       

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