sexta-feira, abril 29

ENSAIOS SOBRE A SOLIDÃO I


Não me considero filósofo porque me graduei em filosofia, mas nem por isso não me ponho a pensar. Apenas acho que o rótulo é pesado demais para mim, haja vista a imensa história que carrega o nome "filósofo". Estou mais para um errante... um errante que pensa, se é que tal categoria pode subsistir em algum ente. Ainda que ela não exista e ainda que nada a faça subsistir, é assim que me vejo: um errante que pensa. Com essas duas "palavras", não mais do que meras palavras, em um mundo que a linguagem nos sucumbiu, me (des)qualifico e me (des)explico. 

Quando digo "que pensa", não me refiro a nenhuma categoria dos modelos de racionalidade canonizados pela história do pensamento humano. Não é uma volta ao Cogito Cartesiano. Muito pelo contrário, é uma crítica aos diversos Cogitos e as diversas críticas aos Cogitos que, por fim, também, acabaram se tornando Cogitos. "Que pensa", aqui, está mais para uma "inconformidade", uma irrepresentação, uma inquietação, uma aberração. Um impulso de intolerância para comigo mesmo, e muitas das vezes para com os outros. Um modo de ser irrequieto, uma besta não quista, um tiro pela culatra, um jeito sem jeito. Tudo isso é o pensar. É uma manifestação que corroi e que não me deixa em paz. É um monstro dentro de mim que me diz o tempo inteiro: "fale!!!". Não faz parte de mim, e, ao mesmo tempo, sou eu mesmo, se é que posso dizer "sou eu".

Isto é o pensar. É o colocar para fora aquilo que me faz vomitar, não só palavras, pensamentos e linguagens, mas também algo pior, a mim mesmo. Sou este "que pensa", sou este que é assolado por uma peste, por uma doença e por uma des-graça, se é que ainda existem tais coisas - pois em tempos como os nossos, nem os deuses merecem nossa companhia. E não há como não pensar, pois não há como sair de mim aquilo que de mim sai. Não há sossego, não há quietude, só um vulcão que sempiternamente está em erupção. Que me faz sentir vivo e morto - vivo pois ele expurga de dentro de mim toda minha imundice que sou eu e morto pois quando vejo o que saiu de mim, não encontro nada.

Não há sossego e por isto eu vago.... E vagantemente eu erro. E por isso sou errante. Só na errância que o pensar me deixa em paz. Só quando me assumo e vivo como um peregrino é que me quieto, pois é quando me centro em mim que posso ser. A errância é esta condição, maldita condição, de ser-todo-para-mim. É o momento de quietude pois estou comigo mesmo, ainda que não tenha deixado os outros. Errar, não tem o sentido mesmo de equivocar nem de peregrinar fisicamente. Errar, como um errante, é a solidão, a coisa mais certa que temos na vida. É a verdade mais verdadeira, se é que verdade tem algum valor. Errar é estar só. É se colocar como um ser-todo-para-você. É sua certeza mais pura e mais verdadeira. Na instabilidade do pensar, que solavanca minha paz, me apego na brisa da errância, da solidão mais certa que qualquer concretude de pensamento, mais certa que qualquer matéria para os positivas e as ideias para os idealistas. É a única ontologia que creio e a única fé que raciocino: a solidão, a errância.

A partir disto quero expelir minha irracionalidade, instantes de loucura que mais tarde hão de insistir e chamar de "filosofia", em forma de pequenos ensaios, pois hoje ninguém mais tem mais saco para ler nada. Se Heidegger, diz Apel, foi o último grande filósofo, no melhor sentido da palavra, eu sou o último grande existencialista da face da Terra, no pior sentido da palavra.       

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