terça-feira, maio 17

A ORIGEM DA FILOSOFIA: VÁRIOS OLHARES


Agradeço ao meu aluno do primeiro semestre de filosofia, 
Juliano, por ter escrito esta belíssima reflexão 
e carinhosamente me pediu que incluísse em meu blog. 
Na íntegra replico o texto:

Por: S. Juliano Campos Maia, SDB.

Durante as etapas do Ensino Médio, em nossas escolas, é ensinada uma disciplina pouco divulgada, pouco respeitada e, em vista disto, pouco compreendida chamada: FILOSOFIA. Muitos alunos, dentre outros questionamentos, se perguntam: “para que estudar isso”, “o que eu ganho aprendendo filosofia?”

Diante dessas e outras questões – embora sejam válidas e mereçam todo nosso respeito – temos, em tais perguntas, indagações que grandes filósofos ainda tentam solucionar, e muitos viveram “buscando” tal resposta.

Este pequeno e desinteressado escrito não é de um filosofo “famoso” e não tem nenhuma pretensão de responder a qualquer desses questionamentos. O que vamos falar aqui é sobre a origem desta disciplina que conseguiu e consegue, ao longo do tempo, levantar tantos questionamentos.

- Pensamento sobre filosofia

Quando se pensa em filosofia, logo vem à cabeça a Grécia! Sim, porque durante todo o tempo foi ensinado que a filosofia é uma disciplina estritamente grega. Pois bem, há vários questionamentos e várias interrogações nesta única prerrogativa.

Se formos tratar a filosofia a partir de sua sistematização, podemos afirmar que essa é um fenômeno grego, pois foi na Grécia que a filosofia começa a ser “colocada no papel”, mesmo que de forma ainda muito sorrateira. Porém, a filosofia não se restringe somente à sua sistematização, e sim, a todo seu conteúdo, seja o que está no papel, seja o que é transmitido oralmente.

- Transmissão oral:

Sabemos que antes da escrita, boa e importante parte da filosofia foi transmitida de forma oral, ou seja, os estudiosos transmitiam seu conteúdo de pesquisa só na fala, enquanto seus discípulos ou decoravam ou anotavam (muitas vezes esses também não anotavam) certos conteúdos.

Como exemplo desta transmissão oral temos a problemática dos “Pré-Socrático”, filósofos extremamente importantes para esta gênese da filosofia que quase nada se guardou deles. Alguns fragmentos foram encontrados ao longo do tempo, porém, sem o contexto, o que abriu margens para explicações e manipulações; ainda, devemos lembrar que alguns desses fragmentos são anotações de seus discípulos diretos, correndo o risco, tal escrito, de não ter sido falado daquela forma exatamente.
Sobre a origem da filosofia, lê-se em Julían Marias:

“Se deixarmos de lado o obscuro problema da filosofia oriental – hindu, chinesa -, e que o mais problemático é o próprio sentido da palavra filosofia, e nos ativermos ao que foi essa realidade no Ocidente, constataremos que sua primeira etapa é a filosofia dos gregos” (MARÍAS, Julian – História da Filosofia, pág. 11).

De início, como deixar de lado algo que tem o seu valor, seus questionamentos, sua forma de pensar, sua cosmovisão só pela questão do termo?

Sabe-se que o termo filosofia foi utilizado pela primeira vez por Pitágoras de Samos, mas só o termo; pois a primeira escola filosófica de grande importância é a “Escola de Mileto”, da qual Pitágoras não fez parte. Mesmo sem a nomenclatura “filosofia” o estudo já era realizado e, pode-se dizer, “a todo vapor”!

Antes, os pensamentos filosóficos, principalmente acerca da origem (arché) do mundo já circulavam por toda a Grécia. Por que não cogitar que este pensamento já cercava também em outros povos não gregos?

Aqui não está sendo aberta uma questão para refutar o filósofo Julían Marías, mas, é um questionamento feito acerca de estudos. Precisa-se abrir uma problemática visando outras direções.

No Oriente circulavam pensamentos que divergiam da visão grega, correto! Porém, esses pensamentos também influenciaram culturas, estudos e pessoas em particular.

Para complementar, pode-se pegar, como exemplo, a filosofia de Confúcio (confucionismo), na China. Um pensamento – pode-se dizer, sem medo, uma filosofia – que abrange a política, a religião, a pedagogia. Este pensamento influenciou a China por 25 séculos. Não se deve esperar que algo assim pode ser excluído da filosofia grega! Existem outros pensamentos orientais que influenciaram o pensamento filosófico oriental, tais como: budismo, taoísmo, xintoísmo, entre outros.

- A filosofia como um ato mercantil:

Baseando-se em pesquisas, com um olhar desapegados de pensamentos ideológicos (principalmente daquele Orientalista e Ocidentalista), pode-se descobrir que a filosofia nasce do comércio, como assim?

Pelo simples fato do contato com outros povos, por meio mercantil, dado pela Grécia e outros povos, isso fez com que experiências fossem trocadas. Se temos a filosofia como ato humano, em hipótese alguma pode ser retirado da mesmo o relacionamento interpessoal!

Continuando com os escritos de Julían Marías, pode-se ler:
“A filosofia (...) é uma certeza radical universal que é, ademais, autônoma” (MARIAS, Julían – História da Filosofia, pág. 4). 

A filosofia, sendo universal e autônoma, não poderia tomar partido de um pensamento singular, todos poderiam ter contribuído para sua gênese. Se excluísse um dos pensamentos fundantes, a filosofia poderia estar com uma de suas “pernas” quebradas. A sobreposição de um só pensamento poderia, assim, fechar o campo epistemológico tão amplo na filosofia!

O Mar Egeu foi a grande porta na qual o pensamento Oriental e Ocidental se encontraram e formaram um laço relacional, mesmo que indireto. Assim nasce a filosofia: do ato de comerciar, do ato da troca de palavras, do magnífico ato da troca de experiência!

Neste pensamento (que pode-se dizer contemporâneo) a filosofia nasce no mar, no contato belo e instigante entre Oriente e Ocidente, sem excluir ou sobrepor nenhum dosdois. A filosofia comunga da “arte da junção de pensamentos”, que se pode concluir, a partir deste pensamento, o primeiro grande feito filosófico.

- Um olhar incisivo

Uma outra frase, talvez mais incisiva e, até mesmo, impositiva é esta: “se falamos de filosofia sistematizada, está é grega!”. Como esta frase se torna perigosa se abarcarmos na seguinte indagação: “então a filosofia é só sistematização? Ou são pensamentos, escritos, ensinamentos, mesmo que não sistematizados? ”. Pode ficar sem resposta tais indagações? Não!

Olhar para o primeiro raciocínio e discordá-lo não quer dizer que este não vale de nada! Não! A filosofia sistematizada é grega e isto é um ponto de comunhão; seria errôneo de qualquer filósofo discordar disto, este estaria discordando de outras ciências como: história, paleontologia, paleografia, entre outras. Porém, concordar que esta gênese é somente grega também seria errôneo pelo fato de desconsiderarmos certos pensamentos mais antigos e, até mesmo, mais avançados que os pensamentos gregos; estes seriam descartados somente por não estarem sistematizados na forma grega (ou aristotélica).

Como já foi mencionado acima, se queremos falar de filosofia a partir da sua sistematização ­– esse feito se deve muito a Aristóteles – podemos parar no mundo grego e nos deliciarmos com ele. Porém, se formos falar de filosofia duma forma geral, a partir da “arte da junção de pensamentos”, devemos nos deliciarmos com os pensamentos Orientais e Ocidentais. Um olhar somente para o mundo grego (ocidental) seria um etnocentrismo, pois desconsiderar um pensamento pela sua forma de sistematização (no caso oriental, nem houve sistematização) é desconsiderar, assim, uma cultura, a vida de um povo!

Este escrito é fruto de instrumentos do pensar e não do pensar persuasivo ou impositivo! A filosofia é liberdade, não é opressão! A filosofia é um basta aos conceitos prontos. Assim, esta abre o horizonte do filósofo para outras margens, talvez ainda não observadas!

Referencias:
MARÍAS, Julián – História da Filosofia – Editora Martins Fontes – 2004

CHAUI, Marilena – Convite à Filosofia – Editora Ática - 2000

0 comentários:

Postar um comentário