sexta-feira, maio 20

ÁGUA, PENEIRA, VAZIO, DESPROPÓSITOS, POESIAS: COMENTÁRIOS


Prólogo

Esta fala fala de lugar nenhum, pois ela fala a partir de uma “fronteira”. Fronteira não é propriamente um lugar, fronteira é o “não-lugar”. Este não-lugar desta fala é a fronteira da própria fronteira. É a fronteira da linguagem, é o vinco fundamental entre o pensar e o falar. O que há entre o pensar e o falar? O que se pensa fala ou o que se fala pensa? O que há na fronteira entre o pensar e o falar?

Neste caso, nesta fronteira, neste não-lugar, há o nada. Não como pura negatividade, como ausência, como precariedade, como falta, mas como nada que nadifica. Nadificar é, ao mesmo tempo, não ter nada entre falar e pensar e concede-lhes um espaço nadificador. É perceber que são diferentes, por que existe um vazio que os separa, mas também nada os interpõe. É sobre esta nadificação que nadifica que este falar fala e pensa. E ambos falam e pensam, nadificam, representativamente como literatura e filosofia.

Filosofia e literatura falam e pensam desde muito tempo. E quando falam e pensam, nem sempre concordam. Isto, desde os gregos, pode ser lembrado quando, nos diálogos platônicos, o próprio, rechaça a figura do poeta afirmando seu afastamento da verdade. Sócrates, personagem platônico do diálogo Fédon, expressa este afastamento: “... julguei que um poeta para ser verdadeiramente poeta deve empregar mitos e não raciocínios” (Fédon 61b 6-8). A verdade, na boca de Platão, não fala, ela “é”. Diferentemente de seu mestre, Aristóteles dedica um texto à fala e pensa que, por ela, também se pode pensar, haja vista sua obra dedicada a arte literária denominada Poética. Com efeito, a gênese do pensar-falar realmente é vista a partir do elogio que este filósofo faz aos poetas que, antes do pensar, já pensavam: “... o que é mais antigo é também mais digno de respeito, e aquilo sobre o quê se jura é o que há de mais respeitável” (Met A 983b 32-34). É neste pensar que não é o falar e neste falar que não é o pensar, respectivamente: dos grandes poemas dedicados aos deuses e dos primeiros esforços do logos, que estão vinculados o falar e o pensar. É neste ‘nem’ que nasce a ambos.

A história nem sempre é tão grata, e depois de nascerem, enquanto pensamento filosófico e pensamento literário, um abismo se instala e muito se dará para que este nada nadificante pudesse uni-los novamente. Mas, é nos crepúsculos do século XX que novamente falar e pensar puderam se encontrar, ou, talvez, pudesse se entender. Foi nas madrugadas, às escondidas, que se encontravam, não podia ser vistos juntos, pois sua relação era “im-pura”, pecaminosa e nada aprazível. Ainda sim, ambos insistiram e se encontravam, desrespeitando os alertas de suas famílias. Estes encontros começam, para o desespero de Schopenhauer, na casa de Nietzsche. Lá eles puderam ter o apoio necessário para um encontro desencontrado, algo casual, mas concomitantemente necessário. No falar-pensar de Nietzsche temos:

Não! Volta cá!
La fora faz frio, ouço cair a chuva –
Que seja mais meigo contigo?
- Toma! Aqui tens ouro: olha como a moeda brilha! –
Que te chame “Ventura”?
Que te abençoe, febre?
A porta salta!
A chuva esguicha até minha cama!
O vento apaga a luz, - desgraça sobre desgraça!
-Quem agora não tivesse uma centena de rimas
Aposto, aposto,
Que estava perdido!

Nietzsche permite que este romance siga adiante. Cúmplice? Culpado? Simplesmente porque Nietzsche, um poeta-filósofo, um dia também amou... Felizmente os tempos de trevas vão se esmaecendo e o dia nasce para o não tão jovem casal. O crepúsculo avança e também suas chances de ficarem juntos. E o grande dia chega. O apaixonado casal, já maduro, finalmente pode se dar um ao outro como eram quando crianças: pensar e falar. Contudo eles já não são mais o pensar e o falar, pois, isto, o foram em sua tenra idade. Agora o encontro se dá entre a senhora literatura com uma vasta experiência e o senhor filosofia já avançado na idade. Por outro lado o desejo de amor entre os dois se mantém o mesmo, tanto quanto quando eram meramente um pensar e um falar. Este, tão almejado reencontro, só pode no “poetar”. “Poetar”? Para Heidegger, o falar e o pensar nunca se separaram. Apesar de ambos terem vivido separados durante muito tempo, de, às vezes, se desentenderem, brigarem e terem sido tolidos em seus sentimentos, nunca deixaram de estar juntos em seus corações. Assim, falar e pensar sempre foram poetar. Heidegger, portanto, reconcilia a verdade com a poesia, o filósofo com o poeta, o falar e o pensar, que foram separados pela rigorosidade de Platão: La verdad como claro y encubrimiento de lo ente acontece desde el momento en que se poetiza” (HEIDEGGER, 1996, p.35). O poetar põe na essência da verdade o poema. Reconcilia verdade e poesia e vê que não outro modo de falar-pensar que não seja poetar.


Manoel de Barros e o Poetar

Manoel de Barros não é apenas um poeta. É um poetador. Sua história de vida já o comprova, mas não só. Como um eterno questionador, se colocou como alguém que mora no poetar. A linguagem para ele não servia como um mero instrumento em que suas poesias eram expressas. Ele não pensava pelo mero falar. Ele poetava, ele morava na linguagem que poeta. E o que isto quer dizer? Algumas coisas.... Primeiro que, como Manoel de Barros dizia: “Que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem barômetros etc. Que a importância de uma coisa há ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós”. Ora, mas o velho Aristóteles já não dizia o mesmo? Em outras palavras: “De fato, os homens começaram a filosofar, agora como na origem, por causa da admiração, na medida em que, inicialmente, ficavam perplexos diante das dificuldades mais simples...” (Met A 982b 14-16). Manoel de Barros entendeu que não há como falar sem pensar, não há como não poetar, pois a admiração, o encantamento, o desvelamento é a grande característica do poetar.

Fazer poesias não era apenas falar, nem apenas juntar palavras, mas era “encantar” para o velho poeta do Pantanal. Encantar ou fazer-se encantado é “desvelar”. Desvelar é deixar que a própria linguagem fale-pense. É ser conduzido por uma inspiração quase-divina, é permitir ser o que a linguagem quer ser. É reconhecer-se tocado pelo próprio modo de ser na linguagem. É ver que as palavras não podem estar acima da linguagem, mas que a linguagem desvela aquilo que as palavras falarão.  

Assim como Guimarães Rosa que poetou na prosa, Manoel de Barros poetou na poesia. Seu falar não é desatrelado de um certo desvelamento, de um certo encantamento que não fala à razão, nem ao coração, mas fala ao ser. E isto pode ser comprovado pela sua moradia na linguagem enquanto “des-”. Manuel de Barros é o poeta do “des-”: “desutilidade”, “dessaber”, “desaprender”, “desinventar”, “despropósitos”, etc. Esta fala do des, este desfalar, é a negação de qualquer reificação. Não pode haver rigidez no falar, o poetar não permite um significado, e sim vários. É querer ir além daquilo que nos disseram ser a realidade. É mostrar que não existe realidade e sim realidades. É o poetar que em seu agir desvela realidades, modos de ser. A negação aqui usada pelo poeta é tal como a nadificação. Não é uma negação desconstruidora, mas é numa negação desveladora. Do não provém o sim, e deste sim, outros tantos nãos e sins. É um modo de construir o real a partir do desvelamento das significações existentes, só não poetizadas ainda.

Neste sentido, Manoel de Barros é filósofo. Pois, como Heidegger, quer libertar a filosofia dela mesma. Enquanto poeta quer devolver a literatura à poesia, pois poeta Barros “... a poesia é a infância da língua”, e enquanto filósofo, Heidegger quer devolver a arte para sua essência, a poesia, pois a essência da arte, enquanto poesia, é o pôr-se da obra da verdade. Neste sentido Heidegger e Barros poetam juntos e podem falar-pensar sobre o mesmo nada, sobre a mesma nadificação que muito bem entendia Barros: “... se o nada desaparecer a poesia acaba”. É sobre esta relação nadificante do pensar-falar, a essência do poetar, que se pode desvelar de Manoel de Barros, algumas desanálises.

Sobre água, vazios e linguagem

Neste poetar de Barros e Heidegger, enquanto poeta-filósofos que se põem na linguagem de modos semelhantes, duas obras se destacam: o poema O menino que carregava água na peneira e a o texto: A origem da obra de arte. Ambas têm algo em comum: são poetações. Mas este poetar fala-pensa em uma com imagens por meio de palavras e na outra com palavras por meio de imagens. A primeira é Barros, a segunda é Heidegger. Duas são as imagens que podem ser desanalisadas. O eu lírico diz: “... com o tempo descobriu que escrever seria o mesmo que carregar água na peneira...” E isto, acrescenta: “... é um despropósito”. A imagem é sugestiva, pois coloca a linguagem em xeque! Não toda a linguagem, mas aquela que acha que a ordem é mais importante que a linguagem, aquela que eleva as palavras e se esquece da linguagem, aquela que acha que linguagem é um “propósito”.

Quando o eu lírico de Barros conclui que a imagem de uma água na peneira assemelhada ao escrever é um “despropósito” ele fala a partir de uma linguagem propositada. Ele fala a partir daquele falar que se afastou do pensar. Onde já se viu carregar água na peneira??? Isto é impensável.... é um falar que não leva em conta o pensar. Escrever não pode ser um carregar água na peneira, escrever é coisa séria.... é um propósito. Ora escrever não pode abandonar o pensar, pois o que seria do falar se não fosse o pensar? Esse é o falar da maioria de nós e da maioria da história do falar. O falar foi tratado como servo do pensar. Como uma boa moça, o falar deve ser casto, manso e humilde de coração. Deve ser criado como uma princesa para o cavalheiro pensar. Este por sua vez, criado para matar dragões e salvar princesas em castelos e masmorras deve tudo prover as pobres donzelas do falar.

Jamais o falar deveria se afastar do pensar, é um propósito. Mas o poeta do “des”, o poeta que nega qualquer propósito, desvela um movimento que tardiamente o pensar foi acometido. Heidegger já havia poetado: “o ser mora na linguagem” e, por isso, mesmo o próprio pensar. O pensar é despensado na fala, e não há pensar afastado do falar. Este “despropósito” poetado pelo poeta desvela o que na filosofia se poetou como “giro linguístico”. O “giro” como o “des” é uma negação nadificadora, é um recolcar as coisas como elas poderiam-dever-de-ser. É pensar já falando. O giro reconstruiu as relações entre pensar-falar e o configurou como poetar. Heidegger chega a dizer que a exigência da realidade para com sua essência está na linguagem, ou seja, no poetar. Pois o poetar não fala nem ao coração, nem à razão, mas fala ao ser. Fala o que fala o filósofo: “Nomear um nome nomeia o ente a seu ser a partir do ser” (HEIDEGGER, 1996, p.36). Poetar é mostrar o ser, pois não há nenhum pensar nem falar capazes para tal. Só o poetar, neste giro, mostra o ser. Mostrar, no caso, não é fazer ele sair, ao contrário, é ele que salta aos nossos olhos.

Neste sentido, o eu lírico de Manoel de Barros fala o que fala: “... com o tempo descobriu que escrever seria o mesmo que carregar água na peneira...”, ele reescreve a relação do pensar e do falar. Não mais do poeta, dono da poesia, que escreve, mas do próprio desvelamento do ser da realidade que ao se apresentar oferece as condições para o escrever. É o poeta que empresta à poesia seu escrever. É o poetar, deixar-ser o que o ser deve ser, é o despropósito.

Por outro lado há uma segunda imagem em forma de palavras de Manoel de Barros que também poeta junto com Heidegger: “... A mãe reparou que o menino gostava mais do vazio do que do cheio. Falava que o vazio são maiores e até infinitos”. E mãe conclui: “... Você vai encher os vazios com suas peraltagens...” O menino, diz o eu lírico, gostava mais de vazios do que de cheios, pois os vazios são maiores, infinitos e comportam peraltagens. Ora, não são os vazios tais como o nada nadificador que outrora insistentemente temos poetado? A preferência do vazio, explica o poeta, está na peraltagem, assim como o nada está na nadificação. Entender o vazio-peraltagem e o nada nadificador é poetar. Enquanto nos mantivermos na velha dicotomia pensar-falar, nada tiramos dos vazios, nada tiramos da nadificação. O poetar, diz Heidegger: “... desde a essência poética da arte, desde onde esta procura um lugar aberto em meio ao ente em cuja a abertura tudo é diferente ao habitual” (HEIDEGGER, 1996, p.36). Com esta citação o filósofo, como o poeta, busca um lugar aberto, de onde a essência da poesia poeta.

A poesia, portanto, “é somente um dos modos que adota o projeto esclarecedor da verdade, isto é, o poetizar em sentido amplo” (HEIDEGGER, 1996, p.36). E para poetar o poeta-filósofo deve deixar de ser poeta e deixar de ser filósofo. Eles devem se tornar vazios. Não no sentido de nada-ter, mas no sentido de ter-o-nada. Heidegger fala que a poesia, em sua essência busca a abertura, Barros fala que prefere o vazio. Isto porque a abertura e o vazio despersonaliza, desessencializa, desempodera, desfaz, desfala... E neste desfalar o poetar toma conta. Quando somos o que desomos, vazios, abertos, sem-fundo (Abgrund – nos diz Heidegger), podemos ser-o-que-deveriamos-poder-ser. Ser água na peneira, ser abertos, é o que nos convidam Barros e Heidegger, na medida em que dessomos para sermos. O vazio, diz Manuel de Barros acolhe as peraltices, o aberto, diz Heidegger, desvela o ser. Isto só acontece quando dessomos no poetar.

Assim, o falar e o pensar, a partir de Barros e de Heidegger des-são, pois poetam. O poetar é um convite ao longe ao despropósito e ao giro. E ambos é uma forma de des-ser vazio e aberto. Tudo isso só acontece quando a poesia é um nada e o nada nadifica na sua essência. Pois como diz Nietzsche, no poema da consolação dos poetas, outrora citado: “- Quem agora não tivesse uma centena de rimas, Aposto, aposto, Que estava perdido!”

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