sábado, maio 7

ENSAIOS SOBRE A SOLIDÃO III: A ERRÂNCIA



O que posso dizer que sou? O que posso dizer que somos? Somos nada. Nada mais que uma "errância" que pensa. Mas o que é errar? Errar é quando somos-todo-para-nós-mesmos. E quando assim somos? Quando existimos, é a resposta. E quando existimos? Existimos desdobradamente, ou seja, existimos quando a solidão nos apossa e nos faz sermos-todo-e-somente-todo-para-nós. Me explico. 

Muitos filósofos e pensadores insistiram em reconhecer a existência em diversos modos: "fora da essência", "atrelada ao pensamento", "materialmente constituída", "conjunto de possibilidades", "na relação dialética", "nas relações materiais do trabalho", "na intersubjetividade", etc, etc, etc. A lista é enorme. 

Contudo, nenhuma dessas respostas constituem mais o existir do que quando ele se desdobra, quando ele se isola, quando ele se torna um errante. Ao contrário de meus companheiros existencialistas aos quais me agarro, a angústia não é um sinalizador existencial autêntico, mas, pelo contrário, a solidão. Somente quando você se afasta de qualquer relação é que a existência "lhe pesa". Não notamos que existimos quando estamos fazendo, sendo útil, ou sendo-com [Mitsein] os outros. Notamos que existimos quando não mais suportamos nossa existência. Quando tenho que conviver somente comigo mesmo é que percebo que existo. Somente quando estou a beira do suicídio, quando o suplício é a única alternativa, é neste ponto que sei e tenho certeza que existo, pois pesa-me estar existindo. E a simples possibilidades de retirar-me a vida, ao contrário, torna ainda mais pesado o existir, principalmente quando não sei se me liquido, ou se apenas morro.

Diferentemente do senso comum, a  morte não é infeliz porque me tira a vida. Ela é infeliz porque não sei se depois de "fazer a passagem" realmente irei para o nada. Antes fosse que o morrer  me aniquilasse. Mas pode acontecer o pior: que eu apenas permaneça existindo em outro plano, em outra forma, ou sei la o que. Com a morte, não deixo de existir, para o meu infortúnio. Por isto, as loucuras da solidão, a ausência do outro, garantem minha existência; e nada mais existentivo que minha errância, que meu desdobramento, que minha solidão, cuja existência me pesa. 

Isto não é uma constatação especulativa, como pode parecer. Já disse em outro lugar que estes ensaios não são especulações, mas são descrições das factividades. Exemplos práticos podem ser dados. Que dúvidas tem um acamado, um tetraplégico, um acometido do coma, um louco no manicômio, um bêbado abandonado, um farrapilho de rua, uma prostituta depois de seu vigêsimo programa [...] de que existem? Que incertezas teriam estes de seus infortúnios se não existissem? Tudo não seria mais fácil se eles não fossem acometidos pela existência? Mas que outro momento, que não a solidão de si mesmos, para terem a certeza de que estão lá, como existentes, padecendo por um pecado que não cometeram? Por mais que queiramos apagá-los de nossa medíocre sociedade de classe média, eles estão lá, pagando seu único pecado: existir-para-eles-mesmos.

Portanto, a solidão é a condição errante do existir. Enquanto nos desdobramos, existimos e assim, erramos. Erramos na solidão de ter que conviver com esse espaço vazio que chamamos "eu". É interessante que muitos filósofos, como Descartes, Kant, Fichte e Freud discutiram sobre o ego. E ao discuti-lo quiseram preenchê-lo com qualquer coisa que pudesse dar a ela um peso. Um peso moral, transcendental, racional... Contudo, não há peso maior para o ego que não ser preenchível. Nada lhe confere mais substância do que simplesmente ser um lacuna solitária, ausentando-se de qualquer outro. Se Lévinas quis dar voz ao outro, ninguém deu voz ao eu de modo verdadeiro. Apenas o determinaram sem ao menos perguntar a ele o que ele era. É necessário libertar o eu do eu e do outro.

Só a solidão pode dar a verdadeira liberdade para o eu; pois a condição errante, nos faz existir enquanto eu, essa lacuna vazia, desprovida de nada, a não ser de ter-que-ser-para-ela-mesma-vazia. A solidão, a errância, nos faz ter a certeza, não racional, mas existencial, de que realmente existo.

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