quarta-feira, maio 4

ENSAIOS SOBRE A SOLIDÃO II: O ÚLTIMO EXISTENCIALISMO


No meu post passado me coloquei a escrever, melhor, a dizer umas besteiras, que intitulei de Ensaios sobre a Solidão. Como havia dito, não pretendo ser filósofo, nem criar uma filosofia. Deixo este fardo para os mais intelectuais. Como comenta Regis Jolivet em sua obra As Doutrinas Existencialistas (e que concordo plenamente): o existencialismo não é propriamente uma filosofia. Ele estaria mais para uma via de reflexão que compartilha determinados temas e problemas. Entretanto tais temas e problemas como a liberdade, a existência, a subjetividade, a concretude, a angústia etc, nenhum deles é assumido de modo unitário pelos chamados existencialistas. Cada um deles tem seu modo de "desdobrar sua existência". A liberdade no existencialismo é levada a sério, e não poderia ser diferente. Contrariando outras doutrinas, que a fidelidade ao fundador é uma obstinação, o existencialismo é justamente seu oposto, não há fundador.

Assim também me vejo, o último existencialista. Não aos moldes de Colin Wilson (autor da obra The Outsider), que é considerado um novo existencialista, não faço um novo existencialismo, nem proponho resgatar teses existencialistas. Apenas sou o último existencialista. Se Heidegger pode chamar Nietzsche de "o último metafísico", porque não posso me chamar de o último existencialista? Mas não é por birra que assim me chamo; mas pela razão de que proponho levar a sério a liberdade que estes chamados existencialistas possuíam. Faço de minhas reflexões minha liberdade pessoal e me agarro à esteira de uma via de reflexão concreta e desdobrada de minha própria existência. Como afirma Kierkegaard, a filosofia é expressão do "sou", e acrescento, "quando sou". Neste sentido, sou o último existencialista, sou alguém que agarro em mim quando faço filosofia, à medida que posso realmente "agarrar" alguma coisa em mim ou se sou algo a ser agarrado.

Ser um último existencialista não me faz melhor nem pior, nem prestigia nem desprestigia, apenas quer dizer que a linguagem que sai de mim não pode ser diferente daquilo que assumo. Significa dizer que refletir deve ser desdobramento. Existir é desdobrar. Não há como separar o que sou do que faço, a essência da existência. Existo porque me desdobro e minhas linhas aqui também o são. Penso que devo melhor descrever a respeito deste desdobrar, pois acredito que aqui está o cerne deste ensaio sobre a solidão que, aos poucos, quero ir descrevendo, ou melhor, desdobrando. Quando penso em solidão penso em existir e, por conseguinte, em desdobramento. O desdobrar é algo central neste desdobramento que agora faço. E com este desdobramento de mim, me faço o último existencialista, pois aposto naquilo que há de mais precioso em qualquer reflexão, a saber, a liberdade de poder ser eu e fazer de mim minha reflexão. Ouvi isso pela primeira vez em meu mestrado estudando o problema do Fundamento em Heidegger. Também li tais coisas em Sartre. Mas só aprendi realmente sobre o existencialismo e seu livre desdobramento com KierKegaard, em uma aula que ministrei sobre este filósofo. Foi uma das minhas melhores aulas, pois eu não "dava" aula, eu me "desdobrava". Este ensaio só está começando, outras "bazófias" (para lembrar meu saudoso professor de filosofia política Ivan Roussef nos meus bons tempos da graduação), virão.     

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