quarta-feira, junho 15

CARTA ABERTA AOS DELEGADOS SINODAIS DA IEAB

TUDO É BOM!

Aos Delegados Sinodais,

“Pois tudo o que Deus criou é bom, e nada deve ser rejeitado
se se toma com ação de graças” (I Tm 4,4)

              A presente epígrafe, retirada da Primeira Epístola a Timóteo, deve ser tomada como o mote desta carta. De duvidosa origem paulina, ela não é bem uma epístola, mas indicações pastorais e eclesiológicas calcadas em um ambiente de questões que cercam o paulinismo. Um de seus grandes temas é a liderança, em especial, uma exortação àqueles que estão à frente da comunidade cristã. Em uma de suas reflexões, especificadamente no capítulo quarto, o autor ou os autores sagrados fazem menção de prescrições e proscrições proferidas por “espíritos sedutores” (v.1), mas que na verdade são “hipocrisias dos mentirosos” (v.2). E para refutar tais posicionamentos contraproducentes, o autor sagrado simplesmente se utiliza de um argumento cosmológico da antiga teologia da criação judaico-cristã: “... tudo o que Deus criou é bom, e nada deve ser rejeitado...”.

Mais do que nunca, as palavras do autor sagrado hoje devem ecoar. Neste Sínodo, em que as principais lideranças de nossa Comunidade Eclesial Provincial estão reunidas para rever a vida de toda a Igreja, a Epístola é evocada, em primeiro lugar, pelo seu alerta de fundo: a legitimidade do líder cristão não está baseada em si mesma, mas no fundamento último e no propósito primeiro da criação. Se estamos à frente e lideramos o Povo de Deus, é porque, em primeiríssimo lugar, somos todos parte do grande projeto de amor do Criador, e nossa missão é sermos colaboradores desse projeto, sermos co-criadores. A co-criação delegada pelo Artífice no livro do Gênesis nos exige confiança, mas também responsabilidades; haja vista que só teremos um “Outro mundo possível” à medida que participamos dessa construção. A ideia do Reinado de Deus, presente no ethos do Homem de Nazaré, não é alheia a nós, pelo contrário, é nossa responsabilidade efetivar o paraíso mais do que relegá-lo ao plano mítico-ideológico.

Neste sentido é que a Epístola contribui para a reflexão sobre a questão da união homoafetiva, matéria essa que escapa aos limites teológicos, eclesiológicos, morais e qualquer outra pretensão racional de objetivação. Pois ela é uma questão da ordem da vida, da facticidade, da experiência humana; e deve, antes de tudo, ser tratada não como algo que se “diz” a fim de se chegar a uma opinião, mas anterior a qualquer discurso. Apesar dos grandes debates a respeito da Diversidade e da Sexualidade, tanto contra como a favor, não devemos jamais esquecer que eles não são meramente temas, mas experiências humanas vitais, são pessoas humanas, são criaturas divinas que estão em jogo. E aqui tocamos no âmago da referida Epístola. Diversidade e Sexualidade não estão no âmbito das decisões legais, mas são experiências que fazem parte da condição criatural humana. Apesar de muito se discutir a respeito da pertença ou não da homoafetividade à natureza humana, contrapondo-a a cultura, independentemente desta resposta, não se pode negar que tanto a natureza quanto a cultura são inerentes à condição e à experiência existencial de todo e qualquer humano. A resolução ou não do antigo debate entre a natureza e a cultura, não fará a homoafetividade deixar de ser um fator que toca vida humana. Ainda que descobríssemos que a diversidade sexual é algo meramente cultural e que não faz parte da natureza humana, ainda sim tal opção deveria ser assumida como fato inerente da condição humana.

Quando falamos de “condição humana”, trazemos à baila as grandes reflexões de Hannah Arendt, filósofa que defende a ideia de que para além de nossa natureza estão nossos condicionamentos. A condição humana é toda a experiência intersubjetiva que delineia a humanidade enquanto humanidade, independente do que seja sua natureza. E é por meio dela que nos assumimos como filhos e filhas de Deus; pois é por meio de nossos condicionamentos e delineamentos, muito mais do que pela natureza, que reconhecemos nossa “condição filial”. A grande tradição teológico-cristã que nos alcançou, desde os grandes Pais do Deserto, já afirmava que a filiação não é propriamente uma natureza, mas uma condição. Se reconhecemos em nós, pela experiência da fé, a condição filial, e esta, por sua vez, nos permite chamarmos de criaturas humanas, que medo temos de assumir todos os riscos de nossa condição? Diversidade e Sexualidade são experiências da condição humana e isto é fato! E se não negamos esta premissa, não podemos também negar que a Diversidade e a Sexualidade são frutos da condição filial, ou seja, pertencem à criação divina por participarem da própria condição humana idealizada pelo Criador. Ou será que devemos admitir que algo não tenha sido criado por Deus – caindo no velho problema agostiniano do dualismo maniqueísta? Se a Diversidade e a Sexualidade são condições da experiência humana e são criações de Deus então, como já nos alerta a Epístola, “são boas” e não pode ser “rejeitadas”!

Entendemos pela reflexão acima que, partindo de nossa condição humana e, ao mesmo tempo, filial de criaturas, em nada nos diferenciamos. Aquilo que nos gera estranheza, à luz de nossa condição humana, é, na verdade, aquilo que mais nos aproxima e nos torna humanos. A Diversidade torna-se, por meio desta facticidade, algo que pertence a todos nós.  Não obstante este pressuposto, ele não basta para esta reflexão, uma vez que, de alguma forma, a prática eclesial assim já o concebe. Somos Episcopais Anglicanos, graças a esta diversidade que nos une. Portanto, é necessário mais um passo. E este também tem como iluminação o mesmo trecho da Epístola. Notadamente, ela impõe uma condição: para que algo não seja rejeitado, deve ser tomado como “ação de graças”. Uma ação de graças é um ato de gratidão, é gratuidade. Pela experiência de fé, sabemos que somente Deus é gratidão. Por mais que busquemos ser gratuitos uns com os outros, a meritocracia e o reconhecimento estão sempre a nossa sombra. Por outro lado, uma união matrimonial representa humanamente uma tentativa de reproduzir a experiência de gratidão vivida somente pela Trindade. Damo-nos em casamento porque faz parte de nossa condição humana nos entregar ao outro com propósitos de sermos gratos e celebrar uma ação de graças.

Com efeito, a união matrimonial é sempre uma ação de graças, pois é sacramental. Não há graça maior que a união entre duas pessoas que tem como o propósito celebrar a vida, e com isto ser manifestação de sua condição filial. É claro que, compreender o matrimônio como ação de graças implica ainda uma discussão sobre sua finalidade. Um dos grandes Moralistas contemporâneo, Bernard Hering, já afirmava que a função primeira da união matrimonial não é a procriação, mas a socialização. Caso contrário, não nos diferenciaríamos dos animais. Deste modo, uma união matrimonial deve ser um processo de integração social para o amadurecimento, a fim de proteger a prole. Se isto pode ser aceito, a função procriadora passa para segundo plano, elevando como primeiro e mais fundamental propósito da união matrimonial a condição humana de socialização. Esta mudança paradigmática nos propósitos do matrimônio nos obrigaria a ver uma naturalidade nos laços matrimoniais de pessoas de mesmo sexo. A união homoafetiva em nada feriria a condição humana de suprir sua necessidade de socialização, caso o problema fosse a procriação.

Pelos avanços da biotecnologia e da genética, os segredos da reprodução humana estão cada vez mais desvelados. Resguardando a ética, toda a tentativa da genética de oportunizar a paternidade-maternidade a casais de mesmo interesse sexual tem mostrado como é possível recriar o modelo familiar sem ferir a condição humana e nossa filiação divina. Quando pensamos em família, não podemos esquecer que a antropologia, mediante os estudos de civilizações antigas, reconhece diversos modelos que já fizeram parte do modo de socialização humana e nem por isto fomos extintos, ou deixamos de ser humanos, ou fomos abandonados por Deus. Até mesmo a biologia evolutiva que vê a vida como uma vantagem imperativa orgânico-material tem buscado uma explicação para uma união homoafetiva. Segundo estudos recentes, casais homoafetivos seriam excelentes “tios-tias” e contribuiriam para a criação da prole de seus parentes mais próximos em um mundo que o tempo está cada vez mais escasso. Não menos importante ainda, é o fator social. É impossível ignorar a força social que o movimento LGBT tem assumido no mundo como um todo. Aceitando ou não a união matrimonial homoafetiva, a luta pela Diversidade Sexual continuará e, em função dos reflexos impostos pela da mundialização na ordem econômica, teremos de aceitar, gostando ou não, nossos chefes, religiosos, e até representantes do poder público (como é o caso do Dep. Jean Willis) pertencerem à comunidade LGBT.  

Com efeito, o único real entrave que a relação homoafetiva enfrenta, infelizmente, provém da moral religiosa. Tal como a Epístola nos alerta, temos que nos cuidar contra a “hipocrisia dos mentirosos” que em nome do Amor matam o amor. Nos estudos sobre a ética, a moral religiosa nem sempre coincide com suas exigências e pretensões. Há imperativos e princípios religiosos que podem e devem ser tomados como éticos, ou seja, válidos para todos independentemente de credo religioso. Entretanto, há outros que não podem ser universalizados, se restringindo às suas especificidades. Esta imprecisão do que é realmente essencial ou não para os comportamentos humanos; a ausência de uma imagem realmente bíblica de Deus; e a confusão do real papel da religião para a sociedade, deflagram as manifestações deploráveis de intolerâncias, violências, fanatismos, fundamentalismos e uma total confusão da religião com o poder. Muitas proscrições religiosas são vazias e sem um devido cuidado teológico, visando apenas interesses escusos e evasivos. Sabemos que o homem por natureza é um ser religioso e a pretensão dos Totalitarismos em secularizar a sociedade fracassou. Contudo, a relação religião, ética e sociedade não estão claras o suficiente para que um determinado credo possa sobrepor sem cometer os equívocos que conhecemos na Cristandade Medieval e no atual Estado Islâmico.  

Este entrave religioso se manifesta em nossa Comunidade Eclesial por meio de duas questões fundamentais: a) o ocorrido na última Reunião e Encontro dos Primazes, ou seja, a suspensão de nossa Igreja-Irmã a TEC; b) a efetivação da divisão já existente no discurso.

Por fim, mediante o que foi levantado, nós da Comunidade da Inclusão, exclusivamente à luz da efetiva experiência de irmãos e irmãs que estão conosco em nossa caminhada pastoral diária, que celebram a vida tanto quanto os que são chamados de “normais”, que partilham da mesma condição humana, que co-participam da mesma condição filial como criaturas, que sonham e participam da mesma utopia do Reino, vem por meio desta reflexão pastoral, pedir aos líderes da IEAB o mesmo que o trecho da Epístola a Timóteo: “tudo é bom e nada deve ser rejeitado”, pois a união homoafetiva, sem sombras de dúvidas, não sem as dificuldades inerentes a qualquer tipo de união, é uma “ação de graças”!    

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