segunda-feira, junho 27

ENSAIOS DA SOLIDÃO IV: O DESDOBRAMENTO DA SOLIDÃO

Já havia dito que necessitava de falar um pouco mais sobre o desdobrar. Desdobrar a solidão é a tarefa do último existencialismo. Já vimos que tudo o que se pode dizer, desde uma voz, é: “eu!!!”, esta lacuna vazia da qual sou acometido. Esta voz berrante e dizente de um eu, só diz eu, quando se percebe a si mesmo como um “errante que pensa”. Um errante que pensa é a autoconsciência de ser um vagante, e, se vago, é porque o pensar não me deixa em paz.

Ou se vaga, no sentido de deixar-se-levar-como um errante, ou é consumido pelo pensar, pois também como vimos, pensar é um peso, é um incômodo para si mesmo. Para acalmar o pensar, portanto, se erra... Embora nada acalme o pensar, a errância atenua a dor do pensar, mas não o sufoca. Esta é única coisa que podemos dizer, pois é a única coisa que somos, haja vista que não há diferença em falar, fazer e ser. Simplesmente somos!

E o que somos, somos-todo-para-nós-mesmos. Essa é a única condição possível e a possibilidade do falar, pois é a própria existência. É o próprio e único ser. Vãs são as especulações a respeito do outro, vãs são as vozes que querem dizer o que nunca viveram. Nunca estive no outro, nem sei o que significa essa realidade chamada outro. As únicas realidades que realmente me chegam aos ouvidos, as únicas realidades que realmente me afetam, as únicas realidades que realmente me identifico é a minha solidão. O só realmente é o ser de tudo. Se se pode dizer que existe um discurso ontológico, me desculpem os metafísicos, mas é a partir do desdobramento do só. Quando dizemos qualquer coisa, sempre terminamos com um “só”! – O que há mais na lista....? – “Só!!”;  - Seu nome é só isto? – “Só!!”.  – Há alguma coisa mais que você quer me dizer? – “Só!!” [...] O Só é o momento estanque do acometimento do ser, do ser-todo-para-si. As coisas fluem.... erram...., assim como eu, até que “só” as estancam em-si-mesmas.

É neste momento, então, que há o desdobramento, a existência. No dizer do ‘só’, reconhecemos, pois nos afeta diretamente, que existimos e que existem os não-eu, os seres que não-são-para-mim-mesmo. Somos acometidos que existimos no nosso só desdobrado, ou seja, no acometimento do meu só-ser-todo-para-mim. Isto é realmente solidão. Não há solidão que não no plano existencial, ou seja, no desdobramento do só. Ou só-sou ou nada. Antes fôssemos nada... Mas infelizmente só somos e, ser-assim, é um desdobramento.

Desdobramento, portanto, além de ser nossa única condição existencial de acometimento do só, é também o único método existencialista possível. Desdobrar é, ao mesmo tempo, existir e o modo como somos acometidos de nossa solidão, enquanto condição errante e pensante possível. O último existencialismo entende, no desdobramento, a identificação entre ser-método. Somos (existimos) porque desdobramos e desdobramos porque é o único modo de se reconhecer assim. Ser-todo-para-mim-mesmo-só é o mesmo que Ser-só, com uma diferença, o último está em seu modo recolhido, existente, e efetivante; já o primeiro está em seu modo desdobrado, declarado, discursivo e não menos existente.

Por fim, o desdobrar é ser acometido pela solidão, no sentido de instalar o que já se é, mas ainda não declarado, encoberto pela falsa ideia do Outro, da alteridade e das relações sociais. É o modo de proceder que só ultimo existencialismo é capaz de oferecer para reconhecer nosso ser-só. Sobre o Outro, ainda precisamos esboçar esta ideia.

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