sábado, junho 25

ONDE AQUELE QUE HABITA HABITA?

Neste segundo opúsculo, queremos tratar da segunda questão: onde aquele que habita habita?A resposta heideggeriana a esta pergunta encontrada em Ser e Tempo não pode ser outra que não o “mundo”. Como vimos no texto passado, aquele que habita só pode ser compreendido em seu ser quando ele é um eksistente. Ser eksistente implica em já estar ocupado e empenhado com tudo que o circunda.

Esta bi-implicação que permeia tanto aquele que existe quanto tudo o qual ele está implicado acontece, agora do ponto de vista deste tudo que o cerca (onde ele habita), porque ela não se dá no plano da teoria, mas no plano da ocupação (TEIXEIRA, 2006)

Esta é uma diferença importante: para Heidegger, aquele que habita não está para sua habitação como o pensamento está para seus objetos, isto é, no plano da representação. Pelo contrário, habitante e habitação estão implicados por uma relação de empenho, de ocupação. Em outras palavras, a relação se dá no plano da necessidade. A ocupação é um existencial daquele que habita (um modo de ser) à medida que sua ação é determinada pelo modo de ser dos entes que estão a sua volta, chamados de intramundanos.

O modo de ser dos entes que podem ser lidados por aqueles que habitam, Heidegger denomina de instrumento (Vorhandenheit), pois eles estão disponíveis, dados à mão. Uma vez que eles “vêm ao nosso encontro”, que sua disponibilidade é ocupada a partir de sua possibilidade instrumental, ou seja, que se lida com os instrumentos, eles tornam-se manuais (Zuhandenheit), pois já estão sendo. Neste sentido, para Heidegger, o lidar com as coisas em sua instrumentalidade libera seu ser, o “ser-para”, pois estes só podem ser quando estão sem suas respectivas utilidades (TEIXEIRA, 2006)

O lidar com os entes, a manualidade, implica uma cadeia de ações ligadas a ele. As ações subjacentes à ocupação dos instrumentos revelam que existe uma “rede de referências”, o que delineia, por meio destas, uma “totalidade instrumental”. O conjunto de instrumentos que se vinculam por meio desta rede de referências em função de seu ser-para mostram ainda que existe uma espécie de ‘lógica’ agindo neste todo. Ontologicamente falando, Heidegger denomina esta lógica, esse modo de as coisas estarem referenciadas em suas utilidades, de circunvisão.

A referência não é um mero vínculo externo entre coisas por mera necessidade prática. Ela é, em realidade, a designação ontológica das diferenças entre as relações que compõem as remissões na totalidade instrumental. Ou seja, a referência é a determinação das especificidades dos nexos ontológicos entres os vários instrumentos. Contudo, o que permite a referência ser o que é, ou determinar o que ela determina, é a conjuntura. Por Conjuntura, Heidegger entende a capacidade ontológica dos entes de “deixar-se e fazer junto”, qual seja, é sua necessidade de ter-de-ser o que ele realmente é, ser um manual (TEIXEIRA, 2006).  

As descrições ontológicas acima permitem mostrar que a relação entre aquele que habita e onde habita não podem ser desinteressadas ou meramente especulativas. O lugar onde habita aqueles que habitam não vem ao seu encontro primeiramente como uma representação, tal como a tradição do pensamento cosmológico tenta mostrar com as definições e sacralizações do cosmos. O lugar da habitação primordialmente não é para os seus habitantes uma ideia (uma criação divina, como pensa a tradição judaico-cristã; uma perfeição, como pensa os gregos, etc) pré-determinada à luz da compreensão racional. Bem da verdade, para Heidegger o lugar da habitação é desvelado aos seus habitantes, de modo primordial, pelas necessidades inerentes ao seu modo de ser de ocupar-se com os entes. São tais necessidades de ocupação, de lidar com os instrumentos, que coloca o habitante em contato com as referências possíveis de cada instrumento e com as conjunturas necessárias que, aos poucos, vão se abrindo como totalidades instrumentais. A perda da conjuntura, da complexa circunvisão que organiza e referenciam os instrumentos na sua manualidade, consequentemente, leva aquele que habita a se desabituar e perder sua referência de habitante.

Portanto, a pergunta onde habita aquele que habita, a partir das considerações acima, na perspectiva heideggeriana, tem por resposta o ‘mundo’. Mundo não é uma coisa a parte, mundo é onde o que habita habita. Isto quer dizer que a habitação é a totalidade das referências significativas conjunturalmente co-pertencentes às necessidades de ocupação daquele que habita e que são reveladas pela circunvisão. Esta definição técnica quer dizer simplesmente que o mundo não está separado de seus habitantes, nem pode ser reduzido à somatória de todas as coisas que rodeiam os habitantes, mas é o conjunto de relações que já estão dadas por referências de utilidade e são tomadas consciência no próprio lidar com os instrumentos. Somos seres mundanos quando previamente já nos movimentos nessa teia de referências e remissões sem muito nos preocupar com elas.  

TEIXEIRA, S. M. A noção de habitar na ontologia de Heidegger: mundanidade e quadradatura. Salvador, 2006. Dissertação (Mestrado em Filosofia). Programa de Pós-Graduação em Filosofia, Universidade Federal da Bahia.

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