quinta-feira, junho 30

QUE SENTIDO HÁ NA RELAÇÃO ENTRE AQUELE QUE HABITA E ONDE ELE HABITA?

Este pequeno opúsculo fala sobre o conceito de habitar (Wohnen) em Heidegger. Não em todo ele, mas em específico na obra Ser e Tempo. E para falar deste conceito, nesta especificidade, é necessário pressupor três coisas: quem é aquele que habita, onde aquele que habita habita e que sentido há na relação entre aquele que habita e onde ele habita (TEIXEIRA, 2006).

Neste terceiro opúsculo, queremos tratar da segunda questão: que sentido há na relação entre aquele que habita e onde ele habita? E para responder a esta questão temos de nos debruçar sobre a noção ontológica de espacialidade.

A discussão começa com a noção de lugar. A partir de Descartes, as coisas que pertencem ao mundo possuem um lugar quando estão inseridas umas às outras. Estar inserido dentro de outro é definir o espaço, que dá às coisas sua condição de lugar, distante ou em separado do movimento; e que dever ser visto a partir de medidas matemáticas como largura, cumprimento, etc. A base desta compreensão está na noção ontológica cartesiana de res extensa. Heidegger critica Descartes que a noção de extensão como substância reduz o ser dos entes ao que simplesmente está acessível à matemática (TEIXEIRA, 2006)

Em Heidegger, por sua vez, a discussão do espaço não se condiciona nem a uma exterioridade nem a uma interioridade. Ao contrário de Descartes, é o lugar que dá espaço às coisas, pois ambos são vistos à luz de sua ontologia, i. é, são visto desde a função espacializante daquele que habita. A função espacializante é um desdobramento do modo de ser daquele que habita, enquanto ser-em. Como já vimos antes, o que habita tem em seu ser voltado para fora de si mesmo, direcionado ao mundo. Este direcionamento é, antes de qualquer coisa, uma aproximação como também um distanciamento. Ser-em-direção-a é já estar juntamente distante ou próximo. É o que em linguagem heideggeriana pode-se dizer de “abertura de mundo”.

Assim, é na abertura de mundo descrita na analítica existencial encontrada em Ser e Tempo que a questão do espaço pode ser visualizada, pois nela co-pertencem tanto a função espacializante daquele que habita, seu ser-já-próximo, como também a espacialidade intrínseca à totalidade instrumental e referencial. Nesta abertura ainda, os ente que ali surgem não são “coisas”, depositadas em uma posição que podem ser medidas; mas são entes intraespaciais, na medida em que são instalados e instituídos em um lugar.

Outro conceito trabalhado por Heidegger dentro desta discussão de espacialidade é o de região. É o domínio da abertura que reúne tudo que está remido, como pontos de indicação, em um único ‘onde’. Este onde instaura, institui e abriga o lugar. Na abertura de mundo própria da relação entre aquele que abriga e aquilo que ele habita, então, dá-se lugar, não como uma posição geográfica, mas como instauração, instituição e abrigo de um onde.


TEIXEIRA, S. M. A noção de habitar na ontologia de Heidegger: mundanidade e quadradatura. Salvador, 2006. Dissertação (Mestrado em Filosofia). Programa de Pós-Graduação em Filosofia, Universidade Federal da Bahia.

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