quarta-feira, junho 22

QUEM É AQUELE QUE HABITA?


Este pequeno opúsculo fala sobre o conceito de habitar (Wohnen) em Heidegger. Não em todo ele, mas em específico na obra Ser e Tempo. E para falar deste conceito, nesta especificidade, é necessário pressupor três coisas: quem é aquele que habita, onde aquele que habita habita e que sentido há na relação entre aquele que habita e onde ele habita (TEIXEIRA, 2006).

Neste opúsculo, com efeito, queremos tratar apenas sobre o primeiro pressuposto: quem é aquele que habita. Para Heidegger, aquele que habita é pensado dentro de uma compreensão hermenêutica onto-fenomenológica chamada de “analítica existencial”. Isto porque o filósofo entende que habitar não é alguma coisa outra que uma estrutura ontológica daquele que habita, ou ainda, que é o mesmo, tratar do habitar é, em primeiro, tratar do modo de ser daquele que habita. O modo de ser daquele que habita, Heidegger chama de “ser-no-mundo” e entender este modo de ser é entender que relações travam este modo de ser com o mundo de modo que se pode dizer que há uma relação de habitação. Em outras palavras, é entender aquele que habita já em relação ao lugar que habita.

Esta relação entre habitar e ser-no-mundo aparece em Ser e Tempo quando Heidegger explica o que significa o ‘em’ na estrutura do ser-no-mundo (já que para ‘ser-no-mundo’ é preciso, antes mesmo, ser-em-um-mundo, ou ainda, mostrar as relação de um ‘ser’, de um ‘em’ e de um ‘mundo’). Para Heidegger, o ‘em’ intrínseco àquele que habita como ser-no-mundo não tem como origem o prefixo latino ‘in’ que significa ‘dentro’, mas remete à locução germânica ‘an’ que significa ‘junto-a...’.

Assim ser-no-mundo não significa ser dentro do mundo, mas ser-junto-ao-mundo. E ‘ser-junto’ é o mesmo que estar-acostumado, estar-habituado, familiarizado, que cultiva com, enfim, é habitar. Quem habita ‘é-em-relação-ao-mundo’; quem habita é-habitante, pois se ocupa das coisas, está envolvido. A partir desta relação, se reconhece que ser o que se é, dizer ‘eu sou’, na realidade, é dizer ‘eu sou-em-relação-a’, é dizer que habito. Com efeito, na perspectiva daquele que habita, habitar é estar empenhado no mundo, é tocar e ser tocado pelo mundo, é estar sempre ocupado com (TEIXEIRA, 2006).

Esta prévia relação entre habitar e ser-no-mundo, desde a perspectiva do ‘ser-em’ (aquele que habita) que Heidegger procura evidenciar, tem por objetivo negar qualquer tematização daquele que habita como alguém que está alheio à sua própria habitação. Aquele que habita é um ser-junto-à-sua-habitação. Desde este olhar, tudo que se relaciona ao habitante implica também seu “lugar” de habitação e vice-versa. Com efeito, ela não é uma mera ‘relação’, como outras possíveis, tal como alguém que se liga a outra pessoa em casamento, ou se vinclula a um partido político, ou mesmo a uma ideologia. Ao afirmar que aquele que habita é um ser-em, Heidegger, afinal, pretende mostrar que não existe o habitante sem sua habitação, ambos estão implicados em seu ser. Mas para melhor compreender esta bi-implicação (habitante e habitação), é necessário mostrar como esta relação está montada dentro de sua analítica existencial.

Para Heidegger, aquele que habita em tênue relação com sua habitação é como um eksistente e tal determinação já produz uma ruptura. Esta acontece quando se olha para a tradição do pensamento moderno ocidental que reservou um espaço privilegiado na discussão sobre o habitante para o sujeito, centrando-o na consciência. Na intuição heideggeriana, pois, eksistir remete a um “para-fora”, “em-direção-ao-mundo” e não a um para dentro (TEIXEIRA, 2006). Assim, aquele que habita não pode ser visto como um sujeito privilegiado que se caracteriza pela sua distância frente ao objeto.

Eksistência advém do verbo latino exsistere e literalmente significa: “dar um passo a frente, para fora” (TEIXEIRA, 2006, p.23). Com ele, Heidegger intenta recuperar o sentido original do prefixo grego ‘ek’ (bem como o ‘ex’ em latim) que está diretamente ligado ao movimento do ser de não se movimentar para dentro, mas estar já disposto para fora. É o caráter ontológico chamado por Heidegger de “abertura”. Ser-aberto é transcender, no sentido de já ser constituído como um ultrapassamento de si mesmo em direção ao mundo (TEIXEIRA, 2006)

Aquele que habita é ser-junto-ao-mundo (ser-em) porque justamente o seu ser acontece como um movimento que o coloca previamente diante de suas possibilidades. Quem habita é possibilidade. Entretanto, o termo possibilidade, assim como eksistência, não está no seu sentido comum ou usual, ou seja, possibilidade aqui não significa aquilo que ainda não é, ou aquilo que há-de-vir (potência). Pelo contrário possibilidade são os modos pelos quais aquele que habita junto sua habitação, enquanto ser-para-fora-de-si-mesmo, o faz sair de si para ser a si mesmo.

As possibilidades são as articulações fundamentais que permitem o movimento de sair-de-si, que permite estar-junto. Estas articulações fundamentais são chamadas de existenciais. Os existenciais que formam o habitante são: a compreensão, a disposição e o discurso. A compreensão é justamente aquele estado de estar já projetado para fora. Heidegger também denomina este movimento de projeto. No projeto aquele que habita já está sempre presente na habitação que lha pertence antes mesmo de lá estar fisicamente falando.

A disposição, por sua vez, é o existencial que permite, neste estar-fora-de-si, afetar e ser afetado pela habitação. Mediante ela, aquele que habita está sempre envolvido diretamente com aquilo que ele já está implicado, pois diz respeito àquilo que nos toca diretamente.

Estes existenciais, em sua articulação fundamental, revelam um processo de temporalização daquele que habita. O fato de que aquele que habita estar-projetado para fora de si, já o antecipa temporariamente. Uma possibilidade como esta, ainda, se abre para aquilo que deveria-ter-sido. Pois projetar-se para fora de si necessita já estar e ter alguma familiaridade com aquelas outras coisas que não são o si mesmo. Estes ekstases do tempo, portanto, é que permite aquele que habita habitar.  

TEIXEIRA, S. M. A noção de habitar na ontologia de Heidegger: mundanidade e quadradatura. Salvador, 2006. Dissertação (Mestrado em Filosofia). Programa de Pós-Graduação em Filosofia, Universidade Federal da Bahia.

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