quarta-feira, julho 27

TRADUÇÃO ADAPTADA DO FRAGMENTO: A CONCEPÇÃO TRADICIONAL DA HERMENÊUTICA (HEIDEGGER)

Este texto é uma tradução adaptada do Parágrafo 2 do Texto: Ontologia - A Hermenêutica da Facticidade. Ela foi feita a partir da tradução inglesa de John Buren publicada pela University Indiana Press (1999). Nesta tradução - que tem fins meramente pedagógicos - procurei apenas deixar os comentários de Heidegger referente às variações de sentido da Hermenêutica sem me preocupar com os textos em grego e/ou em latim presentes nele, bem como se as traduções do filósofo é ou não uma tradução que merece ser revisada na hora de fazer a transposição para o português. Para mim, o que me interessa neste texto é mostrar, mediante os comentários de Heidegger e independentemente de sua postura filosófica frente à hermenêutica, a riqueza de significação que esta adquiriu e pode adquirir. Na sequência, segue minha adaptação.


§2 Conceito Tradicional de Hermenêutica

A expressão “hermenêutica” é usada aqui para indicar o modo unificado de abordar, aproximar, acessar, interrogar e explicar da facticidade.
A palavra hermeneutiké (episteme e techné) é formada a partir de [...] hermenéia (interpretação) [...] Sua etimologia é obscura[1].
Ela é relativo ao nome do deus Hermes, o mensageiro dos deuses.
Poucas referências nos permitirão delimitar o significado original desta palavra e entender bem como o seu significado tem mudado.
Platão: “os poetas são, porém, os arautos dos deuses”[2]. Assim, o seguinte se aplica aos rapsodos que, por sua parte, recita os poetas: “Vocês não se tornarão emissários dos emissários?”[3]. Intérprete é aquele que comunica, anuncia e faz saber a alguém o que o outro “quer dizer”, ou alguém que, por seu turno, transmite, reativa esta comunicação, este anúncio e o torna conhecido Cf. Sofista 248a5, 246e3: “falará sobre”: dar a conhecer o que os outros dizem.
Teeteto 209a5: Logos (discurso) = a expressão dos diferentes. O tornar conhecido é um tornar explícito as diferenças, ademais, em relação ao que é comum. (Cf. Teeteto 163c: o que nós vemos das palavras e o que os intérpretes delas comunicam) – compreensão não teorética, mas “vontade”, desejo e semelhantes, ser, existência, hermenêutica é o anúncio e o tornar conhecido do ser de um ser em seu ser em relação a .... (mim).
Aristóteles: “Seres vivos usam sua língua para degustação bem como para conversar como suas relações, disto, a degustação é um modo necessário de suas relações (portanto, é encontrada em muito deles), mas abordar e discutir algo com outros (conversar sobre algo) existe em função de salvaguardar o autêntico ser dos seres vivos (pois vivem em seu mundo e pelos significados dele)”[4]. Aqui hermenéia simplesmente permanece como diálektos (conversa), (isto é, discutir o mundo como se nós fossemos lidar com ele. E tal discussão é simplesmente o modo fáctico de atualização do logos e este (discurso sobre algo) têm como seu interesse tornar os seres abertamente manifestos, acessíveis à nossa visão e tendo-os em sua utilidade e inutilidade)[5].

[...]

Entre os “escritos” de Aristóteles, há um que nos foi transmitido com o título Sobre a Interpretação. Ele trata do logos em termos de sua atualização básica de descobrir seres e tornar-nos familiar com eles. O título deste texto é muito apropriado à luz do que foi notado até então. Porém, nem Aristóteles, nem seus seguidores imediatos no Peripatos introduziram o texto sob este título. Ele foi passado desde o estado literário de Aristóteles para seus estudantes como um ‘projeto inacabado’ e ‘sem título’. O título já estava em uso no tempo de Andronicus de Rhodes. H. Meier, quem estabeleceu a autenticidade do texto em sólidos fundamentos, conjenturalmente, coloca a primeira aparição do título na primeira geração depois de  Theophrastus e Eudemus[6].
No presente contexto o que é realmente importante para nós sobre hermenéia funcionando como um título de uma investigação particular de Aristóteles é o que isto nos diz sobre a historia do significado desta palavra. O que o discurso mostra é o tornar algo acessível como ser ai, no abrir, como ser avaliável. Como tal, logos tem, com respeito ao que ele atualiza, a possibilidade distintiva do ser-verdadeiro (tornar o que era previamente escondido, coberto, disponível como desvelado, como aqui no aberto) Porque o texto de Aristóteles lida com tudo isto, ele é certamente chamado de hermenéias.
            Este sentido de hermeneúein toma em geral um significado junto aos Bizantinos e corresponde a nosso termo “querer dizer”. Uma palavra ou combinação de palavras querem dizer alguma coisa, “tem um significado” (Um Platonismo do significado deriva disto).
            Filon descreve Moisés como um intérprete de Deus, um mensageiro que anuncia e torna conhecida a vontade de Deus[7].
            Aristeas: os escritos dos judeus “requerem tradução”, “interpretação”[8]. Tradução: tornar o que foi apresentado em uma língua estrangeira acessível em nossa própria linguagem e para o bem dela. Nas Igrejas Cristãs, hermenéia, então, chega a significar, quando muito, um comentário (enarratio) (comentário, interpretação: perseguir o que é autenticamente significado em um texto e, assim, tornar o conteúdo que é significado acessível, facilitando o acesso a eles (exegesis).
            Agostinho oferece a primeira hermenêutica em grande estilo: “O homem deve abordar a interpretação de passagens ambíguas na Escritura com as provisões que seguem: no temor de Deus, com um só cuidado de buscar a vontade de Deus na Escritura; bem educado na piedade para que ele não tome o prazer de cair em brigas por causa das palavras; equipado com o conhecimento das línguas para que ele não fique preso nas palavras desconhecidas e nas locuções; munido com o conhecimento de certos objetos naturais e eventos que são introduzidos para fins de ilustração, para que ele não subestime a força de sua prova; suportado pela verdade que os textos contêm...”[9]
            No século XVII, a encontramos com título Hermenêutica sacra para o que é, de outro modo, denominado A chave da Sagrada Escritura[10], Introdução aos Escritos Sagrados[11], Tratado sobre a Interpretação[12] e Filologia Sacra[13].
            Hermenêutica é agora não mais que interpretação em si mesma, porém, a doutrina sobre as condições, os objetos, os significados e a comunicação e aplicação prática da aplicação Cf. Johannes Jakob Rambach:

I.      Princípios da Hermenêutica Sacra[14]. Sobre os corretos planos de aproximação para a interpretação de textos, do significado dos textos.
II.    Significados internos da Hermenêutica sacra[15]. Analogia religiosa como um princípio de interpretação. Circunstâncias, afetos. Arranjo, relações. Paralelismo na Escritura.
III.   Significados Externos e literais da Hermenêutica sacra[16]. Gramáticos, críticos, retóricos, lógicos e cientistas. Traducao e comentários.
IV.  Tratamento próprio da descoberta do significado[17]. Sobre a comunicação, argumentação, aplicação porismática e prática. (Porismata – inferências).  

Com Schleiermacher, a ideia de hermenêutica que tinha formalmente sido visualizada em uma compreensiva e existencial maneira (Agostinho) foi então reduzida a uma “arte (técnica) de compreensão”[18], discurso do outro, e vista como uma disciplina conectada com a gramática e a retórica; ela foi trazida para uma interna relação com a dialética – esta metodologia é formal, como uma hermenêutica geral (teoria e técnica do entendimento de qualquer discurso estrangeiro), ela inclui a disciplina especial de hermenêutica teológica e filosófica.
A. Boeckh tomou esta ideia de hermenêutica em sua Enciclopédia e Metodologia da Disciplina Filológica[19]. Dilthey adotou o conceito de hermenêutica de Schleiermacher, definindo-o como “a formulação das regras da compreensão”[20] (técnica de interpretação de registros escritos), mas ele apoiou-o com uma análise da compreensão como tal e investigou o desenvolvimento da hermenêutica no contexto de suas pesquisas sobre o desenvolvimento das ciências humanas. Mas é precisamente aqui que uma limitação em sua exposição se mostra em si mesmo. As épocas decisivas no atual desenvolvimento da hermenêutica (Período patrístico e Lutero) permanecem escondidas para ele, desde sempre ele investigou a hermenêutica como um tema apenas na medida em que exibe uma tendência para o que ele em si mesmo considera ser a essencial dimensão metodológica para as ciências humanas. Ainda, o atual e sistematicamente conduzido enfraquecimento do pensamento de Dilthey (Spranger) nunca chegou perto para mensurar sua posição sobre a natureza da hermenêutica, que é, para começar já com muitos limites, mostrando pouca clareza sobre as questões fundamentais e movendo-se apenas, em uma pequena medida, em sua direção.

HEIDEGGER, M. The tradicional concept of hermeneutics. In: Ontology – The Hermeneutics of Facticity.Trad. John van Buren. Bloomington, Indiana: Indiana University Press, 1999, pp.06-11. 

PS: As notas de fim foram conservadas como no texto original.




[1] Cf. E. Boisacq, Dictionnaire etymologique (Heidelberg and Paris, 1916), p. 282f.
[2] Ion, ed. Burnet (Oxford, 1904), 534e. [Cf. Edith Hamilton and Huntington Cairns (eds.), The Collected Dialogues of Plato (Princeton: Princeton University Press, 1961), p. 220: "... these lovely poems are not of man or human workmanship, but are divine and from the gods, and the poets are nothing but interpreters of the gods...."].
[3] Ibid., 535a. [Cf. The Collected Dialogues of Plato, p. 221 (modified): "Well, and you rhapsodes, again, interpret the utterances of the poets? ... Accordingly, you are interpreters of interpreters?"].
[4] De anima B 8, 420b18ff. [Cf. Richard McKeon (ed.), The Basic Works of Aristotle (New York: Random House, 1941), p. 572: "... the tongue is used for both tasting and articulating; III that case of the two functions tasting is necessary for the animal's existence (hence It is found more widely distributed), while articulate speech is a luxury subserving its possessor's well-being...."]
[5] Politics A 2, 1253aI4f. [Cf. The Basic Works of Aristotle, p. 1129: "... the power of speech is intended to set forth the expedient and inexpedient...."].
[6] "Die Echtheit der Aristotelischen Hermeneutik," Archiv fur Geschichte der Philosophie 13, NF. 6 (1900): 23-72.
[7] De vita Mosis ill, 23 (II, 188), in Opera IV, ed. L. Cohn (Berlin, 1902), p. 244. [Cf. Philo, VoL 6, trans. F. H. Colson (London: Heinemann, 1929), p. 543 (modified): "... and I will now go on to show in conclusion that Moses was a prophet of the highest quality. Now I am fully aware that all things written in the sacred books are oracles delivered through Moses.... Of these divine utterances, some are spoken by God in his own person with his prophet as his interpreter."]
[8] Ad Philocratem epistula, ed. P. Wendland (Leipzig, 1890), p. 4, 1. 3. [Cf. Aristeas to Phllocrate~ (Letter of Aristeas), trans. Moses Hadas (New York: Harper & Brothers, 1951), p.97 (modified): "Demetrius said, 'Translation is required. In the country of the Jews they use a peculiar script, just as the Egyptians employ their arrangement of letters, and they have their own language. They are supposed to use Syrian, but that is not the case, for theirs IS another dialect,'")
[9] De doctrina. christiana, in Patrologia latina, ed. Migne (subsequently cited as "Migne"), Vol. XXXIv (Pans, 1845), Liber ill, cap. 1, I, p. 65. [Cf. On Christian Doctrine, trans. D. W. Robertson (Indianapolis: Bobbs-Merrill, 1958), p. 78.]
[10] M. Flacius Illyricus, Clavis scripturae sanctae seu de sermone sacrarum literarum (Basel 1567).
[11] S. Pagnino, Isagogae ad sacras [iteras Liber unicus (Cologne, 1540 and 1542).
[12] W. Frantze, Tractatus theologieus nevus et perspicuus de interpretatione sacrarum scripturarum maxrme legitima (Wittenberg, 1619).
[13] S. Glass, PhikJkJgia sacra, qua totius V. et N. T. scripturae tum stylus et litteratura, tum sensus et genuinae interpretaticnis ratio expenditur (Jena, 1623).
[14] lnstitutiones hermeneuticae saerae, variis observationibus copiosissimisque exemplis biblids illustratae (Jena, 1723), Conspectus totius libri: Liber primus.
[15] Ibid., Liber secundus.
[16]  Ibid., Liber tertius.
[17] Ibid., Liber quartus.
[18] Hermeneutik und Kritik m. bes. Beziehung auf das Neue Testament, e~. F. Lucke,. Ill Siimmtliche Werke, Part I, Vol. 7 (Berlin, 1838), p. 7. [Hermeneutics: The Handwntten Manuscnpts,
ed. Heinz Kimmerle, trans. James Duke and Jack Forstman (Missoula: Scholars Press, 1977),
p.96.]
[19] Encyklopiidie und Methodologle der phl~ologlschen wlSsenschaft.en (~elpzlg, 1877). [On Interpretation and Criticism, trans. John Paul Pritchard (Norman: Umverslty of Oklahoma Press, 1968).]
[20] 24. "Die Entstehung der Hermeneutik," in Philosophische Abhandlungen, Chr. Sigwart zu seinem 70. Geburtstage gewidmet v. B. Erdmann u. a. (Tiibingen, Freiburg, and Leipzig, 1900), p. 190; 5th ed. in Gesammelte Schriften, Vol. V (Stuttgart and Giittingen, 1968), p. 320. ["The Development of Hermeneutics," in Selected Writings, trans. H. P. Rickman (Cambridge: Cambridge University Press, 1976), pp. 249-50 (modified).]


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