domingo, agosto 21

A OBJETIVIDADE PROVÁVEL DO OUTRO EM SARTRE

Neste post quero aproveitar que estou orientando um acadêmico sobre Sartre, justamente sobre a temática do "Olhar", para fazer aqui uma breve reconstrução da objetividade provável do Outro, como parte da teoria da alteridade neste filósofo. No tema do "Olhar", que pode ser encontrado em seu tratado O ser e o Nada, Sartre começa discutindo sobre a probabilidade da objetividade do Outro sem cair no realismo e no idealismo e é justamente esta justa medida que aqui pretendo reconstruir.

Para Sartre, uma das modalidades da presença do Outro para o mim é a da objetividade. Se a relação de objetividade é fundamental para determinação do Outro, então a existência deste permanece conjetural, ou seja, como uma hipótese a qual se pode apenas deduzir. Portanto, se quisermos ter certa probabilidade da objetividade do Outro, não se deve encará-la por remissão a uma solidão originária e totalmente independente daquele que o capta. Em outras palavras, a objetividade do Outro de modo nenhum deve estar na base de uma consciência solitária e independente do mim. Pelo contrário, Sartre entende que se há uma objetividade provável para o Outro que se apresenta, ela deve remeter a uma conexão fundamental em que o Outro se manifeste diferente daquele que é captado pelo conhecimento.

Os equívocos com respeito à relação fundamental do Outro estão, diz Sartre, quando as teorias clássicas, ao reconhecerem corretamente que todo organismo humano percebido remete a alguma coisa, erram ao afirmar que tal remissão indica uma existência separada tal como noúmeno kantiano está por detrás dos fenômenos. Sendo assim, erra quem acredita que o surgimento do Outro se dá dentro do conhecimento representacional propriamente dito. Para Sartre, a própria percepção refere-se a uma relação mais fundamental, a qual, no caso do Outro, deve referir-se ao "meu ser-Para-outro".

Para fazer aparecer esta conexão fundamental da objetividade provável do Outro, Sartre recorre a realidade cotidiana, que é onde, segundo ele, o Outro realmente aparece. Pergunta-se Sartre: o que significa dizer 'homem' quando vejo um objeto? Em primeiro lugar, significa dizer que a aplicação das categorias que geralmente servem para agrupar as coisas espaço-temporais em nada contribuiriam para trazer alguma novidade neste tipo de relação. Em segundo, significa dizer que aparece para o mim uma relação "sem partes" estabelecida de uma só vez e cujo interior se estende uma espacialidade que não é a espacialidade do mim.

Afirmar 'homem' para um objeto, argumenta Sartre, é, em vez de ser um agrupamento de objetos que estão espaçados para o mim, uma orientação que o "escapa". Nesta relação "sem distância e sem partes" as orientações possuem uma peculiaridade: ao mesmo tempo em que surgem de uma só vez como objeto, escapam do mim e agrupam-se entre o objeto-homem e os objetos que o cercam. Tal peculiaridade, por sua vez, é denominada por Sartre como desintegração das relações que se pode apreender entre os objetos do mundo. É neste sentido, então, que um objeto pode ser tomado por homem: quando ele aparece como um objeto que desintegra as relações dos objetos do mundo. Deste modo, define Sarte o Outro: a fuga permanente das coisas rumo a um termo (que é o homem) que capto ao mesmo tempo como objeto e que me escapa na medida em que estende à sua volta suas próprias distâncias.

De acordo com Sartre, o Outro agrega seu espaço utilizando, para isto, as coisas do espaço do mim; reagrupa o espaço à vista do mim enquanto escapa com todos os objetos. Em outras palavras, o mim consegue captar a relação entre o Outro e as coisas de modo objetivo, porém não consegue captar como estas aparecem para o Outro. Com efeito, nos termos de Sartre, o Outro aparece como um objeto que "me roubou o mundo", já que "a aparição do outro no mundo corresponde, portanto, a um deslizamento fixo de todo o universo, a uma descentralização do mundo que solapa por baixo a centralização que simultaneamente efetuo". Pelo aparecimento do Outro, o mim é destronado de sua centralidade relacional com mundo e o Outro rouba-lhe este lugar.

Ainda sim, tudo isto está dado ao mim como estrutura parcial do mundo e não está fora do terreno do objeto. Isto é, ainda que o Outro se revele em uma nova relação desintegradora, que escapa da captação do mim, ele se revela como Outro-objeto, como "objeto que vê o que vejo". Por outro lado, um outro modo do Outro surge na cotidianidade: o Outro-sujeito. Sartre sustenta que este outro modo do Outro deve ser reconduzido à possibilidade de o mim "ser visto pelo Outro". Quando o Outro me lança seu olhar, o mim revela-se como ser-objeto, e este de nenhum modo poderia ser revelado para ele mesmo da objetividade do mundo ou de seu ser-sujeito.

Com a revelação do ser-visto-pelo-Outro, Sartre entende que a conexão fundamental da relação entre mim e o Outro aparece em sua objetividade provável. Ou seja, se há alguma objetividade possível na aparição do Outro para o mim, esta deve ser remetida ao olhar do Outro, pois este olhar revela a estrutura originária da relação que é anterior ao dado perceptível.

De modo sintético, podemos retomar o argumento de Sarte:

I.      A objetividade não pode se dar no meramente perceptível, pois seria meramente conjetural;

II.    Há uma objetividade provável que remete a uma relação mais fundamental;

III. Esta relação fundamental que confere probabilidade à objetividade deve ser observada no cotidiano;

IV.   No cotidiano, o Outro me aparece como:
a) Outro-objeto: relação entre homem e meio que se apresenta e ao mesmo tempo escapa como organização das coisas do mundo feitas pelo objeto-homem
b) Outro-sujeito: aquele que me vê e me revela como objeto:

V.  O olhar do outro é a concreção cotidiana da relação fundamental que confere ao outro sua objetividade provável

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