quarta-feira, agosto 10

ALEGORESE EM ORÍGENES

Quero trazer para este post um brevíssimo fragmento extraído do famoso tratado de Orígenes - sistematizador da alegorese cristã - , De Principiis, que apresenta o procedimento hermenêutico deste filósofo e teólogo. A ideia, em geral, é mostrar como, já no século III, a consciência da interferência do leitor na produção do significado, bem como a necessidade de discutir a justificação da própria hermenêutica já são presentes. Em outras palavras, Orígenes tem presente que a subjetividade do leitor não pode ser tomada como argumento válido e que fundamenta a produção da significação. Neste sentido é cogente discutir e estabelecer critérios válidos para que a significação possa ser relevantemente aceita em sua objetividade e coerência frente ao texto.

Para tanto, nosso filósofo se vale da alegoria (allo - outro; agoréuo - declarar; ou seja, declarar alguma coisa outra que não seja o que aqui está), mediante o método da alegorese (fazer aparecer o outro) filoniana (de Filon de Alexandria) em consonância com a tipologia paulina (Gl 4, 21-24) de encontrar os traços cristológicos que dão sentido ao Primeiro Testamento. Esta estratégia permite Orígenes sustentar uma hermenêutica que encontra no significado oculto (alegoria), tendo como chave de leitura a cristologia da revelação evangélica, uma leitura possível e de pretensão universal das Escrituras. Abaixo, segue o fragmento que comprova esta leitura: 

  11. O modo, então, tal como aparece para nós, em que devemos lidar com as Escrituras e extrair delas seu significado é o segue e este tem sido verificado desde as próprias Escrituras. Para Salomão, nos Provérbios, encontramos algumas regras, como estas, ordenadas com respeito às doutrinas divinas da Escritura: “E represente-as de três modos, em conselho e consentimento, para responder as palavras da verdade àqueles que lhes propuseram a ti”[1]. O indivíduo deve, então, representar as ideias da Sagrada Escritura de três modos sobre sua própria alma. A fim de que o homem simples possa ser edificado pela “carne”, por assim dizer, das Escrituras, então indicamos o sentido óbvio. Já para aquele que tem ascendido de um certo modo (pode ser edificado) pela “alma” [das Escrituras], por assim dizer. O homem perfeito, por sua vez, e aquele que se assemelha àqueles mencionados pelos apóstolos, quando dizem: “Nós falamos da sabedoria entre aqueles que são perfeitos, mas não a sabedoria do mundo, nem das regras deste mundo, que leva a nada; mas falamos da sabedoria de Deus em um mistério, a sabedoria oculta que Deus tem ordenado antes dos tempos, para a nossa gloria”[2] (podem receber edificação) desde a lei espiritual, que tem alcançado uma sombra das coisas boas. Pois, o homem é constituído de corpo, alma e espírito, do mesmo modo, as Escrituras foram organizadas por Deus para a salvação do homem. Também, deduzimos isto a partir de um livro que é desprezado por alguns – O Pastor – que diz respeito ao fato de ter sido ordenado a Hermas escrever dois livros e, depois de fazê-lo, anunciar ao presbitério da Igreja o que ele aprendeu a partir do Espírito. As palavras são as que seguem: “Você escreverá dois livros e dará um a Clemente e um a Grapte E Grapte deverá admoestar as viúvas e os órfãos, Clemente será enviado às cidades do exterior, enquanto você anunciará para os presbíteros da Igreja”[3]. Agora, Grapte, que admoesta as viúvas e os órfãos é a mera letra (da Escritura), que admoesta àqueles que ainda são crianças na alma e não são capazes de chamar a Deus de Pai, e que são, nesta consideração, designados órfãos – admoestação, ademais, àqueles que não mais têm um noivo ilegal, mas permanecem viúvos, porque eles ainda não se tornaram dignos do (celeste) noivo. Enquanto Clemente, aquele que já está além das letras, é dito para enviar o que é escrito às cidades no exterior, para os quais chamaremos de “almas”, que estão acima (da influência do) corpóreo (afecções) e das ideias degradadas. O discípulo do Espírito, mesmo sendo ordenado a tornar conhecido, já não mais pelas letras, mas pelas palavras vividas, aos presbíteros de toda a Igreja de Deus; tem se tornado grande pela sabedoria.             

REFERÊNCIA
ORIGENES. De principiis. Livro IV, 11. Trad. Victor Hugo de O. Marques. Disponível em: http://www.documentacatholicaomnia.eu/03d/0185-0254,_Origenes,_De_principiis_[Schaff],_EN.pdf. Acesso em 10/08/2016.




[1] Provérbios 22, 20-21 (grifo nosso).
[2] I Coríntios 2, 6-7 (grifo nosso).
[3] Livro 1, Vis 2,4 (grifo nosso).   

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