terça-feira, agosto 30

AS CRÍTICAS DE EDGARDO LANDER ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS


Edgardo Lander é um sociólogo venezuelano, ainda em produção, e seus escritos compõem a tradição do pensamento denominada "decolonial". Em seu artigo Ciências sociais: saberes coloniais e eurocêntricos, Lander defende que as ciências sociais, por pertencerem à tradição do pensamento moderno capitalista-liberal de pretensão neutra e objetiva, justificou a naturalização da ordem social.

Lander inicia seu artigo mostrando que as dificuldades de se pensar modelos alternativos à primazia da política de mercado que hoje divide o mundo em ricos e pobres se deve ao fato de que o neoliberalismo não pode ser encarado apenas como uma teoria econômica. Pelo contrário, ele deve ser pensado e discutido dentro de um discurso amplo e hegemônico de um "modelo civilizatório"; isto porque ele seria uma "síntese dos pressupostos e dos valores básicos da sociedade liberal moderna". Este modelo, que se expressa em sua máxima potência mediante a eficácia do pensamento científico e tecnocrata, atua de modo a naturalizar as relações sociais e por acreditar que tais relações são fruto de um processo espontâneo do desenvolvimento histórico da sociedade. Esta naturalização das relações sociais, por seu turno, ocorre devido a uma ausência de questionamentos feito às pretensões de objetividade e neutralidade das ciências sociais.

Dois fatores, para descortinar este discurso naturalizante das ciências sociais podem ser levantados, afirma Lander: [1] as separações ou partições da sociedade ocidental; e [2] o modo como se dão as relações coloniais/imperiais de pode constitutivas no mundo moderno. Em relação ao primeiro aspecto, Lander lembra de algumas rupturas (ou fissuras ontológicas) existentes no mundo moderno como: a separação entre Deus, mundo e homem; a separação corpo e mente; e a separação moderna entre população geral e especialistas (feita por Weber). Estas separações descontextualizaram o conhecimento, elevando-o a uma des-subjetivação, ou seja, objetivo e universal. Tais separações objetivadoras se alinharam à perspectiva colonizadora da sociedade moderna que separam o mundo ocidental (europeu) dos "Outros" (o resto do mundo). Dá-se portanto um processo de colonização não apenas econômico, mas também dos saberes, cuja ideia de universalidade do tempo e do espaço desenvolvidas por Locke e Hegel, desde uma experiência particular (a história da Europa), torna-se radicalmente excludente. 

O segundo fator, Lander remete ao fato de que o capitalismo liberal se consolidou por meio de duas condições: a colonização/imperialismo de outros povos e sua consequente subjugação; e a luta civilizatória no interior do próprio terreno europeu que resultou na emergência do modelo liberal. Esta cosmovisão levou a quatro dimensões básicas: [1] a articulação da ideia universal de história com a ideia de progresso; [2] a dupla naturalização: das relações sociais e da natureza humana em favor da sociedade liberal; [3] a ontologização das separações anteriormente vistas do mundo moderno; [4] a defesa da superioridade dos conhecimentos que este tipo de sociedade produz (as ciências), de modo específico as ciências sociais.

O problema das ciências sociais, tal como sustenta Lander, está na sua constituição histórica. Esta sustenta, por um lado, um metarrelato universal que leva todas as culturas e todos os povos a fazerem um processo de transição linear do primitivo ao moderno (civilizado), tendo a sociedade industrial liberal como a expressão mais avançada desse modelo. Por outro apenas reconhecem como categorias válidas aquelas produzidas pelas experiências históricas europeias. Em outras palavras, as ciências sociais reproduzem a construção eurocêntrica como modelo válido de análise para toda e qualquer sociedade. Ela pensa e organiza a totalidade do tempo e do espaço para a toda a humanidade do ponto de vista de sua própria experiência. Este metarrelato, para Lander, é um relato colonizador e imperial, pois considera todas as formas de análise desde a cosmovisão colonial/imperial. 

Portanto, pensa Lander, é necessário encontrar alternativas que possam suplantar desta deficiência que as ciências sociais acabam imputando nas análises latino-americanas. Daí a importância do pensamento decolonial.   

Libro: A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas latinoamericanas.
Edgardo Lander (org). Colección Sur Sur, CLACSO, Ciudad Autónoma de
Buenos Aires, Argentina. setembro 2005.

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