sexta-feira, agosto 26

A VOZ DO MORRO

Este post é um outro olhar sobre esta imagem tão comentada durante os Jogos Olímpicos do Rio. É o olhar a partir do Olhar da Coruja sobre a abertura dos Jogos. Este olhar, por sua vez, não parte de um ponto qualquer do Facebook (se é que isto é um lugar), tão comum em nossa realidade; mas parte de um "favelado", ainda que distante de sua terra, mas "favelado"! Neste post portanto, quero dar voz ao Morro:

Por Juliano Campo Maia

Durante os Jogos Olímpicos Rio 2016, pude ver muitos comentários – bons e ruins, diga-se de passagem – sobre o Rio de Janeiro e sobre esse evento. Amigos, cariocas ou não; desconhecidos, admiradores daquela cidade e daquela cultura; enfim, muitas pessoas falando muitas coisas sobre aquilo que talvez desconheçam a real essência. Por fim, eis que na tela do meu computador, diante de várias imagens da minha terra querida, aparece esta imagem inexplicavelmente linda. Sim, Linda! E só quem viveu neste meio pode contar e interpretar esta imagem de uma forma diferente.

Gostaria de interpretá-la não do modo que vi. Muitos diziam que era preconceito, exclusão, até em Apartheid falaram, o que considero exagero! Como legítimo carioca, suburbano, pobre, favelado, sambista, pagodeiro e demais atributos que carrego no mais profundo do meu ser, com muito orgulho e felicidade, apresento-lhes a minha interpretação diante de tal imagem:

Estes adolescentes, com certeza, estavam assistindo a abertura dos Jogos Olímpicos de suas casas, em suas televisões que não são daquelas antigas, como muitos podem pensar. Como se lembraram que seu “morrão” ficava próximo ao “Maraca”, resolveram sair para apreciarem de mais perto o espetáculo que sua terra e seu povo estavam dando para o mundo. Esta comunidade deve ser o Morro da Mangueira ou o Morro do Turano, ambos na zona norte do Rio. E, claro, como bons cariocas foram para sua escola, viver seu dia a dia e “tiraram onda” com seus colegas de outras partes da Zona Norte e do subúrbio que não tiveram o privilégio de assistirem de pertinho o que eles viram!

Imagino que “farra” foi na escola o dia seguinte: muitas fotos de celulares, postagens nas redes sociais, os outros amigos perguntando se estava bonito mesmo. Enfim, o que eu teria feito se estivesse vivendo isso.

Com toda certeza esses adolescentes também ficaram sonhando em, por um descuido do Prefeito da cidade ou a “caridade” de algum “gringo”, estarem lá curtindo aquele momento de perto com o “povão”. Só que eles têm a consciência de que um evento como aquele custava dinheiro, um dinheiro que iria fazer falta em casa. De que adianta ir assistir a abertura das Olimpíada e amanhã acordar para ir à escola e não ter o pão para tomar o café da manhã? Eles, digo com muita segurança, queriam estar lá mas sabiam que tudo iria passar e a realidade poderia ser mais dura! Preferiram aceitar, com muito gosto, o fato de assistirem os detalhes pela TV e “curtirem” os fogos de camarote na favela. Já esperando a festa de Réveillon em Copacabana.

Estes são meninos e meninas que sonham com uma favela mais justa, digna, segura, feliz. São jovens 
como aqueles lá do “asfalto”, que possuem uma série de privilégios que eles, só por dizerem que moram numa favela, já perdem! Sim, não é porque o Rio tem muitas favelas – e diga-se, até algumas muito famosas – que lá também não exista o preconceito com o “favelado”. Se enganou quem pensou diferente!

Sonhadores, como bons cariocas, eles vão continuar em suas lutas diárias; vão continuar descendo e subido o “morrão”; se escondendo atrás dos carros por conta das balas perdidas; curtindo o “PagoFunk” de sexta e sábado; estudando e mantando aula para namorarem. Enfim, vão continuar sendo os jovens “favelados” que lutam por um pouquinho mais de dignidade e igualdade. São estes jovens que farão a história da minha querida e amada terra, e do nosso Brasil. São estes os jovens que lutam dia após dia para não caírem na tentação da vida criminosa. Verdadeiros guerreiros (sem aquela pitada de exagero carioca).

Este meu comentário não é, de maneira alguma, uma defesa ao governo Fluminense ou tem a intenção de criar um vitimismo frente às crianças e jovens das favelas cariocas. Este é o comentário de um carioca que viveu coisas semelhantes lá em Rocha Miranda (um bairro de 40 mil moradores, no subúrbio do Rio) e hoje sente muita saudade de sua terra (não que o carioca seja bairrista. Mas ele ama muito sua terra). É a fala de alguém que sonhou e ainda sonha com mais dignidade para essa gente tão maravilhosa que vive nas favelas, não só do Rio, mas de todo Brasil.

Concluo este comentário parafraseando os MC’s Cidinho e Doca, quando cantam no Rap da felicidade: “Eu só quero é ser feliz, andar tranquilamente na favela onde eu nasci e poder me orgulhar e ter a consciência que o pobre tem seu lugar”. E, não pode faltar, no mais legitimo “carioquês”: “Mermão, nó(i)sx somo(i)sx do morrão, ma(i)sx somo(i)sx felizes. Vem pro meu mundo e se apaixona pela carioquice. Malandro é malandro, mané é mané!”

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