sábado, setembro 3

O PROJETO TRANS-MODERNO DE ENRIQUE DUSSEL


Enrique Dussel é, sem dúvida, juntamente com outros, um dos maiores filósofos latino-americanos ainda vivo. Suas reflexões a partir de 'nosso olhar' (o olhar latino), revelam as grandes questões que devem partir de um outro locus. Conhecido pela sua proposta de uma "filosofia da libertação", Dussel é do tipo que - segundo as fideístas palavras de seu amigo e discípulo (e meu muito amado e respeitado mestre e, hoje, companheiro de profissão), o prof. Dr. Márcio Costa - "convida a pensar"; ao contrário de outros - e faço questão de citar - como Olavo de Carvalho que presta um desserviço à filosofia brasileira e latino-americana com sua "filosofia do palavrão"... Neste post quero comentar sobre o conceito de "Transmodernidade" de Dussel a partir de seu artigo Europa, modernidade e eurocentrismo

Dussel, de início, põe em questão o conceito de "Europa". Em suas palavras, este termo passou por um "deslizamento semântico" que deve ser rediscutido. Segundo o filósofo, há uma equação, construída no século XVIII pelo romantismo alemão, de que Europa é igual a Grécia + Roma. Ora, em primeiro lugar, o que se chamou de "Europa", no sentido moderno, não corresponde nem geograficamente nem, em termos de discurso, ao que foi a Grécia ou ao mundo grego. Em segundo, o que corresponde a Europa no sentido moderno é o mundo "Ocidental" tal como foi entendido pelo império romano: aquelas regiões que falavam o latim, se opondo, portanto, ao império Oriental que tinha como característica a fala grega. O interessante desta divisão é que a "Europa" como sinônimo de "Ocidental" incluía também a Africa do Norte....

Em terceiro lugar, Dussel recorda que a Europa latina Medieval, ao enfrentar o mundo árabe, se separa - e deixa bem claro o filósofo: "pela primeira vez" - da África e se reduz a uma faixa de terra periférica encurralada pelos muçulmanos. Na tentativa de se impor ao mundo Oriental, a Europa latina inventa as Cruzadas como o primeiro gesto de colonização. O resultado é desastroso e a Europa latina Medieval, até este momento de sua história, não passa de uma periferia do vasto império turco muçulmano. Como quer reforçar Dussel, não foi desde sempre que a Europa foi "centro" do mundo, e acrescento: para a triste de muitos...

Se a Europa nem sempre foi "A Europa", quando foi que ela assim se tornou? Para compreender esta mudança no entendimento da Europa, sustenta Dussel, deve se entender também o engendramento de Modernidade. Para a etnografia europeia, a teoria que explica a modernidade é aquela esboçada por Weber e reforçada recentemente por Habermas: a teoria de que a Modernidade é fruto do pensamento ilustrado do século XVIII. Entretanto, na perspectiva de Dussel, esta não é uma teoria que melhor caracteriza a Modernidade e a mudança da Europa para o centro do mundo. Para ele, a Modernidade começa em 1492, quando o expansionismo ibérico atinge o extremo ocidente e que as diversas histórias (gregas, romanas, persas, turcas etc) passam a pertencer a uma única história. O mundo moderno realmente se descortina com o levante da Europa como centro e todo resto se torna sua periferia.

Esta mudança da Europa da periferia para o centro, a partir do advento da Modernidade, ou seja, pelo projeto expansionista europeu, se dá, na visão de Dussel, pelo confusão que há "entre a universalidade abstrata com a mundialidade concreta hegemonizada pela Europa como 'centro'.". A conquista do México, por exemplo, teria sido o primeiro âmbito do ego moderno, que, segundo o filósofo, antes de ser cogito (penso) foi conquiro (conquisto). Desta perspectiva engendra-se o que Dussel chama de o "mito da modernidade". Em breves palavras, este mito conta a estória de uma Europa superiora, avançada e com bons propósitos de avançar 'o mundo' (modernização). Como este mundo não quis a aceitar a boa vontade europeia, ele se tornou culpado e deve sofrer a violência e o sacrifício da modernização como forma de expiar seus pecados e se salvar.

Para superar este "mito" somente uma "razão libertadora", pois ela revela o eurocentrismo da razão ilustrada e põe em questão as falácias desenvolvimentistas da modernização. Para tanto, é necessário redescobrir a dignidade do Outro (da outra cultura, de uma outra etnografia, etc) e negar juntamente com esta descoberta toda culpabilização deste outro. É necessário inocentar as vítimas do eurocentrismo afirmando a sua Alteridade como "Identidade na Exterioridade", como pessoas "negadas pela Modernidade".

É neste sentido que Dussel propõe a "Transmodernidade". Esta é um projeto de superação da razão moderna, na medida em que esta se reduz em razão eurocêntrica, pela transcendência. Transcender é afirmar a alteridade co-essencial para a Modernidade, "é uma co-realização do impossível para a Modernidade; ou seja, a co-realização de solidariedade, que chamamos de analéptica". Não é negar a modernidade nem sua razão, mas é colocar lado a lado as diferenças existentes na Modernidade e promover sua realização de modo co-solidário. Este projeto ainda, afirma Dussel, não é pré-moderno, nem antimoderno, nem pós-moderno: ele é transmoderno. Ou seja, transcende-se a negação da alteridade pela negação do mito moderno e reafirma-se a possibilidade da convivência solidária entre diferentes. 
   

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