domingo, novembro 13

BIBLIA, ANGLICANISMO E VIDA COMUNITÁRIA



O presente texto é uma reflexão sobre as intuições que a experiência histórica anglicana construiu para ler a bíblia e fazer sua missão no mundo. Ele tem como objetivo último mostrar como no momento atual tanto esta visão anglicana quanto sua missão são importantes para o momento religioso pós-moderno. 

1. A VISÃO ANGLICANA DA BÍBLIA

            E o reverendo, ao término de uma leitura bíblica em um culto dominical, exclama: – “Palavra do Senhor!!”. E a assembleia, em coro, responde: – “Demos graças a Deus!!!!”. Pode até ser bonito e reconfortante, liturgicamente falando, esta reverência à “Palavra”, como sinônimo de autoridade e de verdade. Contudo, se não se compreende teologicamente o que isto significa, uma afirmação desta envergadura pode causar sérios danos. Dentan (1961) sustenta que o termo “Palavra” para designar a Bíblia deve, antes de tudo, querer dizer “comunicação”. Assim, quando se diz: “Palavra do Senhor”, na liturgia, não está, com este termo, dizendo que cada signo ali presente tem como autoria a divindade[1]. Ao contrário, significa dizer que o sentido ali expresso por meio daquelas palavras são intuições reveladas por Deus. Nesta perspectiva Dentan (1961) alerta para o fato de que muitos erros doutrinais ocorreram e ocorrem com esta compreensão equivocada entre Bíblia e Palavra de Deus.
            Para resolver esta questão e não cair em uma leitura fundamentalista da bíblia, Dentan (1961) propõe que é necessário ampliar o conceito de “inspiração”. Inspiração é comumente compreendida como uma intuição humana, tal como se dizem dos poetas e artistas. Este conceito não se aplica adequadamente ao caso bíblico. Inspiração bíblica é na verdade a crença de que a origem do sentido da mensagem contida nos textos bíblicos é transcendente, ou seja, que os textos bíblicos possuem de fato uma relação semântica com Deus. Esta relação semântica, por sua vez, se dá pelo fato de que Deus, por meio de seu Espírito, comunica a sua mensagem aos homens de modo que ela ilumine sua vida. Dizer isto não significa dizer que Deus “ditou” cada signo contido nos textos sagrados. Significa, na verdade, que, por meio da inspiração divina, os homens puderam acolher o sentido da mensagem revelada e transformá-la em códigos lingüísticos, os quais, obviamente, estão em consonância com a cultura histórica do momento; bem como dependem do modo como aquele sujeito conseguiu interpretá-la. Isto significa, em última, instância, que a inspiração não é um processo direto, mas indireto, passando necessariamente pela interpretação humana e pelas condições linguístico-culturais do momento histórico. 
            A inspiração bíblica, Dentan (1961) prossegue, deve ser vista sob a seguinte ótica: ainda que as condições de recepção são adversas (subjetividade da interpretação e diversidade sócio-cultural e linguística), a crença na inspiração pressupõe que o Espírito de Deus conduz a história e suas descrições, garantindo, ademais de todos os equívocos que podem ocorrer, que, em última instância, o sentido da mensagem seja preservado e crido. Coisa contrária, a bíblia ou seria um grande livro de estórias inventadas por povos antigos ou mesmo um grande livro de magia, o que não é o caso.
            A tese de Dentan (1961) sobre a perspectiva da compreensão da bíblia como Palavra de Deus à luz de uma crença específica de inspiração é corroborada pelo estudo feito por Fuller (1988). Segundo este autor, a tese da inerrância bíblica nunca foi advogada pela Igreja da Inglaterra, “mesmo no período da Reforma, quando se dava ênfase na Bíblia como Palavra de Deus” (FULLER, 1988, p.01). Fuller (1988) recorda ainda que no artigo II dos Trinta e nove artigos da Religião é o Filho de Deus que é reconhecido como a “Palavra do Pai” e não o livro bíblico em si mesmo. Neste sentido, a bíblia ganha este título muito mais pela centralidade Cristológica do que pela coletânea como um todo. Cristo é a Palavra e o sentido divino das sagradas escrituras. Esta ruptura com a equidade entre Bíblia e Palavra de Deus – ou seja, para a tradição anglicana, a bíblia não é a Palavra, mas contém a Palavra – é análogo tanto a Encarnação como a Igreja. Segundo Fuller (1988), a divindade e a humanidade não se dão separadas, mas em uma plena comunhão. Tal como ocorre na Encarnação no qual o divino quis se fazer humano, bem como na Igreja, por meio da qual o humano se faz divino, assim também ocorre com a Bíblia: humano e divino estão presentes na própria revelação. A Bíblia, a Eucaristia e a Igreja são analogamente, com efeito, sacramentos de Deus.
            Também como Dentan (1961), Fuller (1988) percebe que a questão da relação entre bíblia e Palavra de Deus muito se deve ao que se compreende por inspiração. Fuller (1988) nega que esta deva ter algum tipo de relação com a inerrância bíblica. Ainda que o conceito de inspiração possa ser totalmente questionável a ponto de até ser tido como inexistente, tal como fora feito por Hanson, Fuller (1988) pensa que há ainda boas razões de mantê-lo. Entre elas, em consonância com Dentan (1961), está o fato de que o Espírito, como aquele conduz e guia a história, se faz presente nela. Por outro lado, Borsch (s.d.) propõe que esta atuação do Espírito que justifica manter a ideia de uma inspiração bíblica deve ser pensada em conjunto com a ideia de interpretação. Afirma Borsch (s.d., p.11) que o “próprio processo de interpretativo é a inspiração”. Isto significa que a presença do Espírito que sustenta e guia a história humana ocorre no momento da atualização do texto bíblico. Ou seja, a ênfase recai não na subjetividade do intérprete e nem em uma objetividade do passado, mas na articulação hermenêutica das estórias narradas e os desafios presentes.  
É também neste sentido que Fuller (1988) compreende o princípio da suficiência bíblica. De acordo com o autor, a herança da Reforma Protestante com respeito às escrituras (sola scriptura) é conservada no artigo VI dos Trinta e nove artigos da Religião que sustenta a suficiência das escrituras para a salvação. Esta, também, deve ser lida, na mesma ótica da inspiração: não que tudo o que está na escritura é conteúdo para a salvação, mas que não há outra literatura que contenha maior autoridade normativa que os textos sagrados em matéria de testemunhos autênticos sobre Cristo.
            Bem compreendida a relação Bíblia e Palavra de Deus, por meio da inspiração e da suficiência, pode-se falar de sua primazia. Fuller (1988) recorda que no passado a bíblia era usada para justificar doutrinas teológicas. Hoje, esta postura não pode mais ser sustentada. É por meio das intuições inspiradas dos textos sagrados que as teologias e suas proposições devem ser construídas. Contudo, sustentar esta primazia não significa dizer que a bíblia é uma norma prescritiva, pois nela não há teologias acabadas. De acordo com Fuller (1988), o que a bíblia oferece é um “modelo de procedimento”, ou ainda, “uma série de orientações” com as quais se podem construir prescrições doutrinais, bem como se pode tecer considerações morais para um discurso ético.
            Ainda que se bem compreenda a primazia e a centralidade bíblica para a visão anglicana, esta primazia é sinônima de vários problemas. Borsch (s.d.) elenca alguns como: [a] a amplitude de certas interpretações; [b] a rigidez e a legalidade do uso das escrituras; [c] a seleção subjetiva de partes da escritura ou trechos que sejam mais a plicados do que outros sem grandes critérios teológicos; [d] ou ainda a reverência à bíblia como um objeto mágico ou de culto sem nenhuma ligação ou aplicação à realidade. Tais problemas, como afirma Borsch (s.d.), mais dividem do que unem as comunidades. Por outro lado, a busca de uma unidade como equivocidade também não corresponde ao princípio da primazia bíblica. Borsch (s.d.) lembra que a construção dos textos que hoje formam o que chamamos de bíblia foi bem lenta, gradual e diversa. Diversa também foi a recepção e a construção do discurso teológico dos primeiros cristãos. Para este autor, a diversidade tem muito a ensinar, pois, parece ser a “essência da experiência cristã”.
            Para que tais questões possam ser mitigadas, Borsch (s.d., p.07) entende que a primazia bíblica deve ser vivenciada, pois “genuíno conhecimento e entendimento vem só por meio da participação”. Muito mais do que simplesmente perguntar pela veracidade e pela significação da mensagem bíblica, Borsch (s.d.) propõe que os textos bíblicos sejam vivenciados. Para tanto, é necessário resgatar o valor das narrativas bíblicas. Afirmar isto não significa desprezar os estudos histórico-críticos sobre a bíblia e sua preocupação com as verdades científicas. Na verdade, o resgate das narrativas não é ingênuo, mas é um mergulho no mundo simbólico que compunha a cosmovisão que pertence os textos. Não há como compreender as mensagens bíblicas desconectadas com suas mitologias, simbologias e literaturas. Viver a mítica e a mística das narrativas muito desafiam a hermenêutica contemporânea e mostram que nossos instrumentos são, em muito, insuficientes para acessar a densidade das narrativas bíblicas.
Por fim, é necessário dizer que uma vivência autêntica precisa de um tripé, que o anglicanismo estabeleceu entre: escritura, tradição e razão. Desde o século XIV, a prática da Igreja inglesa foi recorrer, no que diz respeito às Sagradas Escrituras, à “Tradição” e à “Razão”, como afirma o § 78 da Conferência de Lambeth de 1988. Borsch (s.d.) argumenta que a avaliação contemporânea destes dois critérios propõe que nenhum deve assumir a primazia absoluta, pois ambos só atuam melhor quando há uma “interação criativa” (BORSCH, s.d., p.16). A tradição, em certo sentido, pode ser identificada à Escritura, na medida em que esta última é a encarnação da mensagem de fé (CONFERÊNCIA DE LAMBETH 1988, s.d., § 79, p.26). Por outro lado, em sentido lato, a tradição pode ser entendida como “a vida contínua da Igreja guiada pelo Espírito Santo, que recebe a mensagem de Deus e, ao recebê-la, a interpreta” (CONFERÊNCIA DE LAMBETH 1988, s.d., § 79, p.26). Neste caso, as Escrituras são resultado da tradição e deve, por ela, ser constantemente interpretada. Com efeito, a tradição não pode ser simplesmente reconhecida como fórmulas e orações clássicas, mas deve ser encarada como a “mente” viva e crescente da Igreja formada de geração em geração. O apelo à tradição, neste sentido, é o apelo à mentalidade conduzida e articulada pela linguagem da Igreja em geral. (CONFERÊNCIA DE LAMBETH 1988, s.d., § 80, p.26).
Já o que se pode dizer da razão é a capacidade humana de simbolizar, ordenar, compartilhar e comunicar a experiência. Como faculdade humana é um dom divino e não pode ser separada das Escrituras, haja vista que aquela é pressuposta para a produção desta. De outro modo, a razão, além de seu caráter estrutural (faculdade), ela também é a própria razoabilidade, ou seja, o caráter racional. Desta forma, a razão significa a mentalidade comum vivida em determinadas culturas. (CONFERÊNCIA DE LAMBETH 1988, s.d., § 81-82, p.27) O Anglicanismo, de modo geral, concebe a razão como a “... ‘compreensão’ da cultura na qual a Igreja vive e o Evangelho é proclamado” (COMISSÃO INTER-ANGLICANA DE TEOLOGIA E DOUTRINA, s.d., § 3.10, p.31), ou seja, como um instrumento de análise e interpretação da Boa Nova mediante categorias culturais e linguísticas locais. Com efeito, tradição e razão possuem elementos comuns que se tornam comunicáveis, já que a primeira expressa a mentalidade compartilhada enquanto crentes e a segunda a mentalidade compartilhada enquanto cultura local. Este fato, como ocorreu na história, não pode ser confundido nem distorcido fazendo com uma das mentalidades se sobreponha a outra. Mas é na dialética possível entre ambas que o Evangelho pode e deve ser atualizado e vivenciado. (CONFERÊNCIA DE LAMBETH 1988, s.d., § 81-84 p.27).
           
2. O PAPEL DA BÍBLIA NA MISSÃO DA IGREJA

    Uma vez compreendida a visão anglicana sobre a bíblia, é cogente ainda identificar seu papel na Missão da Igreja. Primeiro se discutirá o que é missão. Toda missão tem que ver com Espiritualidade. Segundo Triana (2008, p.01), “espiritualidade significa nos encontrarmos como missionários”. Em outras palavras, missão e espiritualidade são faces da mesma perspectiva do viver segundo Espírito, como já revelava o apóstolo Paulo. Neste sentido, a missão é um ato do Espírito que nos impulsiona a evangelizar: “igreja é a comunidade que é enviada em missão ao mundo, em nome de Deus, a proclamar a boa notícia” (TRIANA, 2008, p.03). Nesta compreensão de missão ligada a de espiritualidade (enquanto vida no Espírito) dois outros grandes conceitos são necessários: o de evangelização e o de Igreja.
Evangelizar “significa compartilhar com os outros o que recebemos por meio de Jesus Cristo [...] a garantia de uma qualidade de vida que a morte física não poderá destruir...” (CCA/73 apud NEVES, s.d., 01). Já a noção de Igreja, segundo a Conferência de Lambeth de 1988, seria:
[...] a assembléia de pessoas que, pelo Batismo, pertencem à Nova Aliança que Deus estabeleceu com a humanidade em Cristo e que, portanto, através do dom do Espírito, estão unidas com Cristo em sua morte e nova vida, a ponto de serem adotadas como filhos e filhas de Deus, compartilhando com Cristo e uns com os outros a nova vida que pertence à carne da Palavra eterna de Deus (COLEMAN, 1992, p.221 apud NEVES, s.d., p.01).

A Igreja, na visão da Comunhão Anglicana, coloca sua essência na assembléia e não nas estruturas eclesiásticas. Isto é significativo, pois a reforça a ideia de que a centralidade bíblica enquanto fundamento deve estar necessariamente na e com a assembleia. Neste sentido, não há como pensar em missão sem pensar na noção de ministério, ou seja, de pensar a missão sem levar em consideração a evangelização. Afirma Neves (s.d., p.02): “Missão é a forma, evangelização é o conteúdo!”. Aqui entra a centralidade bíblica, pois, como defende Neves (s.d.), somente uma compreensão bíblica de apostolicidade para a Igreja é capaz de garantir o vínculo entre missionaridade e ministerialidade. É neste ponto que a noção de Missão se plenifica, pois missão não deve ser tomada como ação social ou individual da Igreja. Pelo contrário, é “Deus-em-ação por meio de cada comunidade local [...] num testemunho encarnado [...] pastoral [...] e sacramental” (CCA-9/93, pp.95-105 apud NEVES, s.d., p.02). Em outras palavras, toda missão é uma “Missio Dei[2] e encontra seu fundamento nos próprios textos bíblicos.  
Com efeito, não se faz missão, ou seja, não se vive o anúncio da boa notícia somente com discursos, mas também com ações. E tais ações estão ligadas a uma diakonia. Seguindo a orientação da Comissão de Ajuda Inter-eclesiástica, Refugiados e Serviço Mundial em Larnaca (1986 apud TRIANA, 2008, p.04), Diakonia é “serviço à plenitude do ser humano”, mas não somente, também de “toda a criação”. Isto significa: “compromisso para a reconciliação, a justiça social e a libertação”. Deste modo, diakonia é uma co-responsabilidade em todas as nossas relações de modo que a justiça e a libertação possam se fazer presente. Em outras palavras, como afirma Triana (2008) a diakonia é um projeto de solidariedade e transformação, ou seja, evangelizar e servir (diakonia) são uma única e mesma coisa. Nesta lógica, a missão enquanto compromisso com a evangelização-diaconal deve ser anterior a qualquer processo de construção eclesial. Só há Eclésia (grupo de pessoas reunidas) se antes houver evangelização-diaconal. Um grupo só sente eclesial quando antes foi assistido em suas necessidades (diaconia) e introduzido na dinâmica evangelizadora. Triana (2008) lembra muito bem que na história do cristianismo de modo geral esta lógica foi invertida, criando uma ideia de que a grande missão de Deus fosse fundar Igrejas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

            A partir das breves reflexões acima, algumas coisas podem ser ditas a respeito da visão anglicana da bíblia e de seu papel na missão da Igreja. Em primeiro lugar, e isto é de certa forma consensual, que o sentido da assembleia cristã anglicana está calcada na centralidade dos textos sagrados. Não há outra razão de ser da Igreja se ela ainda não entende que não é fim em si mesmo. A Igreja, enquanto assembleia cristã, por mais óbvio e batido que este tema seja, ainda não compreendeu o que significa dizer que não deve ter a si própria como fim. Muito menos ainda é suficientemente compreensível a noção da centralidade bíblica. Apesar de inúmeros estudos e documentos sobre este tema, parece que a práxis ainda está muito distante.
            Talvez uma das coisas que corroborem para esta dicotomia entre teoria e prática esteja nas implicações que esta aproximação possui. Uma delas está na desconexão entre centralidade e diversidade. Os estudos mostram que centralidade não é sinônimo de uniformitarismo ou inequivocidade. Centralidade e diversidade devem caminhar juntos, pois o centro nem sempre deve ser central e muito menos único, se tomarmos o exemplo de uma elipse. A diversidade, também é presente tanto no processo de construção bíblica, na noção de Igreja, quanto na doutrina cristológica da encarnação. O divino nunca se dá sem o humano, o que já pressupõe uma diversidade. Se considerarmos ainda o dogma da Trindade, Deus é diverso, mais do que uno.
            O tema da diversidade, tão presente em nossa atualidade, deve estar cada vez mais próximo das praticas eclesiais, pois não existe revelação que não a pressuponha. Os modelos modernos de centralidade como um pólo único ou pólos dicotômicos (um certo binarismo) estão sendo colocados em discussão e toda a contribuição dos estudos pós-modernos aludem para o fim destes modelos. Os textos sagrados por si só são plurais, tanto em sua forma como em seu conteúdo. Seu processo de recepção e aplicação também não é diferente. O que já nos coloca uma questão: por que defender uma unidade se tudo se mostra diverso?
            Do mesmo modo deve ser o papel bíblico para a Missão da Igreja. Missão enquanto Missio Dei é a ação de Deus na vida de uma comunidade para que o evangelho possa ser vivido e transformado na vida das pessoas. Porém, não existem formas e práticas únicas. Há várias formas de produzir esta mensagem nos corações dos fieis. A missão da Igreja é portanto garantir que estas formas sejam implantadas e sustentadas. Daí a grande importância contemporânea da visão anglicana do papel bíblico na missão. Em uma sociedade pluralizada, desmaterializada e carente de novos sentidos, há uma real necessidade de se reinventar formas de ação de Deus. O cristianismo, historicamente falando, aparece como alternativa de sentido e significado para um mundo Greco-romano em decadência (MARQUES, 2008). Ou seja, parece ser essencial da proposta cristã o seu constante reinventar. Neste sentido entra a intuição anglicana da via média, como uma caminhada que procura sempre reinventar os modelos católicos e reformados de ser.
            Se nossa sociedade carece de sentido, e as tradições fundamentalistas aparecem como verdadeiros movimentos niilistas reativos impedindo as novas inspirações do Espírito, o anglicanismo é uma nova forma de ser Igreja. É uma diversidade cristã que pode muito contribuir para alternativas de práticas religiosas. Porém, é necessário que o anglicanismo assim se veja e se autocompreenda, isto é, se, no momento em que vemos os endurecimentos de formas fracassadas (como os modelos fundamentalistas) aparecerem como a última salvação da ação de Deus, cairmos na tentação de seguir alguns destes modelos, jamais conseguiremos nos auto-afirmar como um novo modo de ser cristão. O modo de compreender a bíblia e a missão eclesial anglicana possuem germes suficientes para um salto qualitativo no modo de viver o Evangelho, porém, é necessário ter a coragem de passar pela cruz e pela renuncia do mais fácil. As vezes é necessário passar pelo abandono e pela amargura da solidão para que a ressurreição possa sorrir ao terceiro dia e evidenciar esta nova forma de ser e viver a missão do Cristo.     

REFERÊNCIAS

BORSCH, F. H. Todas as coisas necessárias à salvação. In: Reflexões. Sagradas Escrituras: Centralidade e autoridade numa perspectiva anglicana. IEAB, s.d., v.05. Disponível em: http://www.centroestudosanglicanos.com.br/2013/publicacoes/Reflexoes_N5_lght.pdf. Acesso dia 13/11/16.

COMISSÃO INTER-ANGLICANA DE TEOLOGIA E DOUTRINA. O jeito anglicano: Escrituras, Tradição e Razão. In: Reflexões. Sagradas Escrituras: Centralidade e autoridade numa perspectiva anglicana. IEAB, s.d., v.05. Disponível em: http://www.centroestudosanglicanos.com.br/2013/publicacoes/Reflexoes_N5_lght.pdf. Acesso dia 13/11/16

CONFERÊNCIA DE LAMBETH 1988. Autoridade da Bíblia. In: Reflexões. Sagradas Escrituras: Centralidade e autoridade numa perspectiva anglicana. IEAB, s.d., v.05. Disponível em: http://www.centroestudosanglicanos.com.br/2013/publicacoes/Reflexoes_N5_lght.pdf . Acesso em 13/11/16.

DENTAN, R. C. As santas escrituras. Trad. N. Duval da Silva. 2.ed. Porto Alegre: Publicadora Ecclesia, 1961.

DEPARTAMENTO DE MISSÃO DA IEAB. Quatorze referenciais teológicos para a missão da IEAB, s.d. Disponível em: http://www.centroestudosanglicanos.com.br/bancodetextos/missiologia/quatorze_referenciais_teologicos.pdf. Acesso em 13/11/16.

FULLER, R. H. Escrituras na visão anglicana. Trad. Dom Sumio Takatsu. In: BOOTY, J. & SYKES, S.W. (EDS.) The Study of Anglicanism, SPCK, 1988. Disponível em: http://www.centroestudosanglicanos.com.br/bancodetextos/bibliahermeneutica/escrituras_na_visao_anglicana_fuller.pdf. Acesso em 13/11/16.

NEVES, J. Perspectiva anglicana de missão, s.d. Disponível em: http://www.centroestudosanglicanos.com.br/bancodetextos/missiologia/perspectiva_anglicana_de_missao.pdf. Acesso em 13/11/2016.

TRIANA, P. Missão, evangelização e diakonia. Palestra apresentada na Jornada Teológica do IAT, Espiritualidade, ministério e missão, 11-13 de julho de 2008. Disponível em: http://www.centroestudosanglicanos.com.br/bancodetextos/missiologia/missao_evangelizacao_diakonia_triana.pdf. Acesso em 13/11/16.







[1] Esta visão pode ser perfeitamente identificada na fala do Deão Burgon: “A Bíblia é a voz daquele que está assentado no Trono. Cada livro, cada palavra, cada sílaba, cada letra da Bíblia é a fala do Altíssimo. A Bíblia não é outra coisa senão a Palavra de Deus, não apenas uma parte da Palavra, mas toda a Palavra Daquele que está sentado no Trono, palavra sem falha, palavra sem erro, palavra suprema” (BURGON apud RICHARDSON, 1944 apud FULLER, 1988, p.1).
[2] A expressão Missio Dei também é usada na primeira referência teológica da IEAB que está nos Quatorze referenciais teológicos para a missão da IEAB.

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