segunda-feira, dezembro 19

A GÊNESE DE UM "SABER AMBIENTAL" EM ENRIQUE LEFF


Leff discute a gênese de um “saber ambiental”. No final dos anos 60 e em toda a década de 70 (do século XX), emerge no cenário mundial a questão ambiental. Esta, por sua vez, reflete e compartilha o sintoma da crise de civilização. 

Por “crise de civilização”, Leff compreende duas marcas: [a] o “logocentrismo” da ciência moderna; [b] o “transbordamento” da economização do mundo, guiado pela racionalidade tecnológica e pelo livre mercado. Ambas manifestaram-se por meio de dois fenômenos: fracionamento do conhecimento e a degradação do meio ambiente.

Esta crise de civilização descrita acima e a consciência de uma “nova consciência ecológica” foram indicadas por algumas narrativas do final da década de 60 como: “A Bomba Populacional” de Paul Ehrlich (1968), o “Congresso de Nice sobre Interdisciplinaridade” de 1968 (APOSTEL et al, 1975), a “Teoria Geral de Sistemas” de BERTALANFFY (1968), “O Homem Unidimensional” de Herbert Marcuse (1968), “Da Gramatologia”, de Derrida (1967), A “Arqueologia do Saber”, de Michel Foucault (1969); e na década de 70, como: Nicolás Georgescu Roegen (1971) com A Lei da Entropia e o Processo Econômico, e Os Limites do Crescimento (MEADOWS et al, 1972).

Tais narrativas repercutiram na Conferência das Nações Unidades sobre o Meio Ambiente Humano em Estocolmo em 1972 e esta, por seu turno, contribuiu reconhecendo que as vias para uma possível solução dos problemas ambientais passavam pela reorganização do conhecimento, i. é, pela prática de uma “educação ambiental” fundada em uma visão holística da realidade, uma interdisciplinaridade.

A partir de 1975, O PIEA (Programa Internacional de Educação Ambiental) patrocinado pela UNESCO e pelo PNUMA (Programa das Nações Unidade para o Meio Ambiente) discutiu a incorporação da “dimensão ambiental” nas diversas disciplinas científicas, o que acarretou no reconhecimento da complexidade do problema ambiental e a necessidade uma efetiva interdisciplinaridade como condução do processo de educação formal e informal.

De início, a iniciativa da educação ambiental ficou predominantemente reduzida a uma visão “naturalista”, “biologista” e “ecologista”, em especial na década de 70. A partir da década de 80, a noção de ambiente foi tomando outros contornos, e deu lugar às questões de ordem econômicas e sócio-cultural. Tais reflexões incentivaram a América Latina, a partir de 1985 a criarem programas de investigação e estudo nas universidades sobre interdisciplinaridade ambiental.

Estas reflexões sobre a educação ambiental, que já articulavam ciências naturais e sociais se intensificaram e avançaram para uma aberta discussão a respeito da complexidade ambiental por meio: das diversas interpretações da ideia de ambiente; da fundamentação epistemológica e via hermenêutica a fim de construir uma racionalidade ambiental, ou seja, fundar um verdadeiro “saber ambiental”. Para tanto é necessário entender que interdisciplinaridade não é apenas uma prática multisciplinar, mas também um “diálogo de saberes”.


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