sábado, fevereiro 11

CONHECIMENTO, INTERDISCIPLINARIDADE, AMBIENTAL


Na ótica de E. Leff (2000), “ambiental” não é apenas um conceito ou uma noção ligada às ciências da natureza em geral. Pelo contrário, é um exercício contínuo de repensar o próprio conhecimento, i. é, um grande projeto de refundação da epistemologia.


 Leff (2000) informa que a “questão ambiental” aponta como “problema”, como “investigação” no final da década de 60 e início da década de 70 – do século XX. Como todo problema enquadrado na qualidade de “contemporâneo”, ele não deixa de compartilhar os mesmos sintomas da “crise da civilização”, quais sejam, o fracionamento do conhecimento e a degradação ambiental. Tanto um quanto o outro – ou seja, a questão ambiental e a crise da civilização – sofrem, ou melhor, padecem de dois males: o do “logocentrismo” da ciência moderna e do “transbordamento da economização do mundo”, já que estes circunscrevem dois princípios ativos: a “racionalidade tecnológica” e o “livre mercado”. Nesta relação entre “questão ambiental” e “crise da civilização”, Leff (2000) pretende afirmar que tanto a “crise ambiental” quanto a “crise do saber” podem ser incluídas na perspectiva da “externalidade” do desenvolvimento do conhecimento, conceito este desenvolvido mais adiante.

Vários podem ser os indicativos que evidenciam a mudança de perspectiva a respeito do “ambiental”, Leff (2000), por sua vez, se concentra naqueles[1] que direta ou indiretamente contribuíram para as discussões da Conferência das Nações Unidades sobre o Meio Ambiente Humano em Estocolmo (1972). A partir deste evento em caráter mundial, pode-se dizer que uma nova consciência foi engendrada a respeito dos problemas ligados ao ambiente e – que mais nos interessa aqui – se reconhece que, se tais problemas possuem uma solução, esta “implica mudanças profundas na organização do conhecimento” (LEFF, 2000, p.310).

À Luz desta nova consciência a respeito do “ambiental”, ou seja, da real necessidade de ir além de uma mera ação reparadora em favor do meio ambiente e reconfigurar os modelos e os paradigmas do próprio acesso ao real, Leff (2000) afirma que a problemática ambiental é, na verdade, um “campo”. Um campo “privilegiado”, haja vista que ela permite a “inter-relação sociedade-natureza”. Neste sentido o “campo ambiental” demanda um “método interdisciplinar” que integre essas duas instâncias: a ciência da natureza e a ciência da sociedade. Isto, ainda, significa dizer que tal inter-relação sociedade-natureza deve ser criteriosa e evitar o usual predomínio da visão “naturalista, biologista e ecologista” cuja preocupação, primeiramente, se concentrava: na conservação dos recursos naturais, na preservação da biodiversidade, e na solução para o problema da contaminação do ambiente. Ademais, é necessário que a discussão avance de uma simples articulação interdisciplinar das ciências naturais e sociais para que se abram “diversas interpretações do ambiente” e se estabeleça um “diálogo de saberes”. Neste diálogo conflui tanto a fundamentação epistemológica quanto a via hermenêutica de construção de uma racionalidade ambiental que nos termos de Leff (2000) é denominado de “saber ambiental”.

É patente que a globalização, fruto da racionalidade da modernidade, engendrou uma nova “etapa civilizatória”. De acordo com Leff (2000), esta seria a “era do conhecimento”, pois, talvez, nunca se tenha modificado tanto o real tendo por base o conhecimento. Por outro lado, esta mesma era também permitiu a consolidação da “sociedade do desconhecimento”, em um processo gritante de alienação generalizada. Um paradoxo como este, na verdade, reconduz a discussão às críticas tecidas por Nietzsche e Heidegger[2] às raízes do pensamento metafísico, da ciência positivista e da racionalidade tecnológica, quando a universalidade, a homogeneidade, a objetivação e a coisificação do ser foram seus alicerces.  

Deste modo, repensar o ambiental não pode prescindir de debater estratégias epistemológicas para aclarar a noção de interdisciplinaridade. A fim de se opor ao positivismo lógico e ao idealismo empirista e subjetivista, esta discussão deve combater os “efeitos ideológicos do reducionismo ecologista e do funcionalismo sistêmico” (LEFF, 2000, p.313). Estes são assim sintetizados pelo autor: [1] Teorias Sócio-biológicas e ecologistas: pensam o homem como um indivíduo e as formações sociais como populações inseridas no processo evolutivo da natureza. Desconhecem a especificidade das relações sociais de produção, as regras de organização cultural e as formas de poder político; [2] Economia Generalizada e Economia Social: consideram a ecologia como disciplina por excelência das inter-relações, convertendo-a em teoria geral de sistemas. Ambas têm dificuldades em integrar a reconstrução do real histórico; [3] Teoria Geral de Sistemas: desconhece a constituição ontológica do real por meio de isomorfismos e analogias estruturais; [4] Saber holístico e sistêmico sem fissuras: orienta a produção de conhecimento por um critério de eficácia e eficiência na integração de um sistema científico-tecnológico a um sistema social dado. Submete à ciência o controle e a adaptação funcional da natureza e da sociedade; [5] Confusão de métodos: confunde as condições teóricas de produção de conhecimentos interdisciplinares com as práticas de planejamento e gestão ambiental; [6] Energética: reconduz os estudos das estruturas e dos sistemas de organização das diferentes ordens materiais do real a cálculos de fluxos de matéria e energia.

Estas ponderações apresentadas por Leff (2000) que reduzem ideologicamente a ideia de interdisciplinaridade deve ainda levar em consideração a distinção entre prática multidisciplinar e diálogo de saberes. O primeiro diz respeito à colaboração de profissionais com diferentes formações disciplinares; já o segundo é o uso disciplinar da conjugação de diversos saberes, visões, habilidades e conhecimentos em sua prática educacional, analítica ou de gestão sem necessariamente conduzir à articulação de conhecimentos disciplinares. Esta distinção é importante quando se recorda que o logocentrismo das ciências modernas as unifica no positivismo lógico e na busca pela “homologia estrutural” da Teoria Geral de Sistemas - pois partem de um “único princípio organizador da matéria”, que repugna “pensar a diferença” –, de modo que a racionalidade científica “externaliza” o ambiente e desconhece o saber ambiental.

Um dos problemas das ciências modernas, segundo Leff (2000), é seu poder ideológico e suas “cosmovisões do mundo” no terreno das práticas sociais e das transformações tecnológicas. Isto porque as ciências, de alguma forma, estão inclusas em um debate que “mobiliza o lugar da verdade”, que deriva sua capacidade cognoscitiva e seu potencial transformador da realidade. Este poder ideológico inscrito nas ciências não apenas se deve ao fato de que o sujeito da ciência é um “sujeito ideológico”, mas também por este mesmo sujeito estar submetido às práticas de produção do conhecimento vinculadas às ideologias teóricas e modeladas no tecido de onde emergem as ciências. Tais formações ideológicas tendem a “naturalizar” os processos políticos de dominação e ocultar os processos de reapropriação da natureza que desenvolvem estratégias dominantes da globalização econômica.

Destarte, o saber ambiental se apresenta como uma nova “perspectiva” para: [1] análise de produção e aplicação de conhecimentos como “condições epistemológicas” possíveis de articulação e “internalização” dos mesmos; [2] hibridização das ciências com o “campo dos saberes tradicionais, populares e locais”. Esta nova perspectiva implica em passar de uma prática multiplidisciplinar para um “diálogo de saberes”. Este não pode ser visto como um simples “somatório e combinação dos paradigmas” de conhecimento que construíram os “compartimentos” disciplinares das universidades. Uma interdisciplinaridade ambiental estabelece a “transformação” dos paradigmas do conhecimento para “internalizar” um saber ambiental. O saber ambiental foi excluído desde um processo de “extermínio” dos saberes não-científicos, já que ele é mais que uma “dimensão” internalizável por meio de uma “visão holística” e uma “vontade sistêmica”. Na verdade ele se refere a uma “complexidade ambiental”, na medida em que esta deve estar “aberta” para um “diálogo de saberes”, ou seja, uma “abertura” à inter-relação, ao confronto e ao “intercâmbio de interesses” que vai da solidariedade e complementaridade ao antagonismo de saberes.

É somente por meio destas estratégias de diálogos de saberes que se pode compreender o que é o ambiental, pois sem uma ruptura epistemológica em diferentes paradigmas do conhecimento, garante Leff (2000), não é possível uma irrupção da internalização que encerra no saber ambiental. Na verdade, a ruptura epistemológica é um “encontro” entre “núcleos de racionalidades das ciências” e este encontro é denominado de “externalidade”. Em linhas gerais, externalidade é uma “confrontação” com o “real posto à margem”, aquele excluído do núcleo conceitual do objeto de conhecimento, ou seja, é tudo aquilo que escapa às condições ecológicas da reprodução do capital e das condições termodinâmicas do processo econômico. A internalização, por sua vez, não é a inclusão de princípios, preceitos, conceitos ou teorias, mas o “retorno dos impensáveis”, do que “só será pensável” quando se incide o pensamento sobre o “já pensado”; é uma volta aos “fundamentos de uma ciência” (LEFF, 2000).

Por meio da internalização se visualiza o ambiental. Este não é a designação da ruptura de uma ciência ou da articulação das ciências existentes, mas é o “campo de externalidades das ciências” e a disjunção do pensamento unidimensional e do conhecimento disciplinar que se abre à complexidade (LEFF, 2000, p.319). Assim, no ambiental a interdisciplinaridade é complexidade, ou seja, a interdependência e a inter-relação de ordens de materialidade e racionalidade, é internalização daqueles núcleos excluídos da racionalidade que organizam os objetos de conhecimento das ciências. A complexidade no ambiental é a busca de uma “retotalização do conhecimento”, de uma completude não alcançada por um projeto de cientificidade moderno que, na luta desesperada por unidade[3], gerou fragmentação e dominação.

A complexidade, desde o ponto de vista da internalização de Leff (2000), não deve pretender ser uma solução final equivalente ao holístico e integrador sem falhas nem vazios, como um método que reúne “ilhotas científicas”. Muito menos uma constituição de uma “super-disciplina” (uma meta-disciplina), tal como a ecologia ou a termodinâmica, que ultrapassa o campo possível das conexões a fim de implantar um paradigma onicompreensivo. A complexidade é a uma “reconstrução” do saber que transcende a divisão e a configuração disciplinar do conhecimento em compartimentos estanques. Para que isto seja possível é importante proporcionar “encontro do conhecimento isolado com sua externalidade, com sua alteridade que “irriga novos territórios do ser” (LEFF, 2000, p.320); é o questionamento do logocentrismo, da disciplinaridade, da objetivação e da coisificação. Esta nova complexidade é, nos termos do autor, uma “transdisciplinaridade”, pois ela hibridiza as ciências no diálogo de saberes, cujo saber é na verdade o “saber do desejo de saber”.
LEFF, E. Complexidade, interdisciplinaridade e saber ambiental. In: PHILIPPI JR. (Org.). Interdisciplinaridade em ciências ambientais. São Paulo: Signus, 2000.






[1] Da gramatologia (J. Derrida) – 1967; Bomba populacional (P. Ehrlich) – 1968; Congresso de Nice sobre a interdisciplinaridade – 1968; Teoria Geral de Sistemas (L. von Bertalanffy) – 1968; Homem unidimensional (H. Marcuse) – 1968; Arqueologia do saber (M. Foucault) – 1969; A lei da entropia e o processo econômico (N. Georgescu-Roegen) – 1971; Os limites do crescimento (vários autores do grupo “Clube de Roma”) – 1972.
[2] HEIDEGGER criticou o conceito de verdade como acordo, adequação, correspondência ou reflexo oferecendo um caminho de interpretação da verdade via hermenêutica.

[3] Sob uma perspectiva hermenêutica da constituição do conhecimento científico, percebe-se que a globalização – e a lógica do mercado – como “razão máxima da governabilidade do mundo” não consegue sustentar a certeza do conhecimento, pois “expulsa”  do campo da percepção o “questionamento das causas profundas da crise ambiental”.

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