quinta-feira, abril 27

NOTAS SOBRE ESPIRITUALIDADE



Espiritualidade para mim tem a ver com a ideia de “espírito” no sentido grego (pneuma), aquilo que põe em movimento. Neste sentido, a espiritualidade seria o discurso que procura identificar e reconhecer este movimento motivador a fim de promover uma maior atuação do mesmo; e algumas características são importantes serem ditas.

Espírito, aqui, não é unívoco à Espírito Santo, não está ligado à fé, nem a religião. Espírito é qualquer força movente, são motivações (intrínsecas ou extrínsecas) que promovem uma mudança. Esta, por sua vez, é concreta e age sempre no ser humano, comprometendo seu ser, seu pensar, seu agir e seu existir. Portanto, há tantas espiritualidades quanto existem espíritos a serem reconhecidos.

Uma teoria política pode se tornar uma espiritualidade para um determinado grupo. Uma filosofia de vida pode tornar-se uma espiritualidade para um grupo de pensadores. Valores e virtudes podem torna-se elementos de uma espiritualidade. A própria experiência de Deus, em uma determinada religião, pode tornar-se um elemento de uma espiritualidade, etc.

Com efeito, espiritualidade, fé, religião, Deus e transcendência são elementos distintos, mas com certas relações. A fé é sempre uma experiência de confiança e entrega absoluta a um ente supremo da qual não se tem nenhuma certeza. A fé, apesar de compartilhar semelhanças, ainda é diferente da crença antropológica. Esta é o assentimento da razão a eventos ou pessoas das quais não temos razões suficientes para nos submeter. Por exemplo: entrar dentro de um avião, contrair matrimônio, sair de casa, começar um curso, etc.

Quando a crença antropológica exige do crente, além do assentimento da razão, uma entrega maior, subentendendo que esta entrega será feita de modo absoluto a um ente supremo (que necessariamente não precisa ser Deus, como é o caso de cientistas ateus que dedicam sua vida pela ciência), esta crença se torna fé. O conteúdo da fé pode ser um espírito, um agente movedor. Se isto ocorre, se a fé tem por conteúdo um espírito movedor que não é imanente, mas totalmente transcendente (de origem não natural, mas que age no natural), então temos uma fé em um espírito religioso.

A percepção e tentativa de objetivação deste espírito religioso na sua ação para com os humanos (as mudanças comportamentais e existenciais) é o que podemos chamar de espiritualidade religiosa. À luz de uma espiritualidade religiosa, se constitui uma religião. Esta é a sistematização e a institucionalização dos modos de experiência possível com este elemento motivador religioso a qual aderimos por meio da fé.

Assim Espírito não subentende um elemento religioso propriamente dito, mas uma motivação que pode ter por natureza um ente supremo transcendente. A espiritualidade pode ou não ser religiosa e uma religião possui uma espiritualidade que lhe confere sentido e uma experiência de fé.  


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