sábado, agosto 12

CRISE AMBIENTAL



O que é a "Crise Ambiental"? Este é um dos temas trabalhados por Enrique Leff, sociólogo, ambientalista e economista mexicano. Sua perspectiva a respeito deste tema é interessante por duas razões: [a] ela vai além das preocupações empíricas ou específicas de áreas isoladas como a biologia ou a ecologia; [b] sua preocupação leva em conta olhares alternativos, olhares silenciados, invisibilizados, é uma perspectiva descolonial.

Para estudar esta questão, Leff sente a necessidade de discutir os fundamentos da lógica que organiza o conhecimento social, ou seja, se se quer compreender a fundo o que é a crise ambiental, deve-se remeter o olhar investigativo ao método de construção e os princípios de validação do conhecimento científico que subjazem esta crise. Ao levar a cabo esta inflexão em direção aos fundamentos, o autor nota um dado sem precedentes: as ciências naturais abandonaram a natureza. Esta é a tese que sustenta toda a discussão de Leff sobre a Crise Ambiental. Cabe, portanto, à investigação, ir atrás das causas deste "abandono", com efeito estas não estão na ordem ôntica das ciências naturais, senão nas compreensões ontológicas das mesmas.

O que é a "Crise Ambiental"? É uma crise civilizatória - responde Leff - uma crise de desenvolvimento. Não em sua dimensão procedimental, como se algum operador de máquinas descuidado tivesse apertado um botão errado durante a história do desenvolvimento sócio-econômico humano; mas uma crise dos modos de compreensão, de cognição e de produção de conhecimentos. Crise ambiental é o efeito de um plano que não deu certo, um plano que se pretendia ser hegemônico, mas acabou produzindo um mundo insustentável. Neste sentido, o conceito ambiental toma outro sentido. Sobre o sentido de ambiental, escrevi um post sobre isso (Cf. Conhecimento, Interdisciplinaridade, Ambiental). 

Ao dizer isto não está se sustentando, por meio da discussão de Leff, que a Crise Ambiental é um efeito no sentido causal, uma sucessão necessárias de erros encadeados causalmente. Para além disso, ela é pensada como um "evento" (no sentido heideggeriano), como algo que simplesmente acontece, um acontecimento-apropriador (nos termos do tradutor do filósofo alemão Marco Antonio Casanova). Isto significa que - escreve Leff - ela surpreendeu a humanidade, pois ela propriamente não tem uma causa aparente ou um "bode expiatório". Segundo Leff, ela remete à racionalidade científico-tecnológica moderna, que tem como base a compreensão heideggeriana do modo de ser da modernidade: "a era da imagem do mundo".

Ainda que profetizada por Murray Bookchin, a crise ambiental adentrou e na a segunda metade do século XX, qual seja, a década de 70, ela se tornou um problema epistemológico. Daí, o autor entender que sem uma real profundidade na discussão da Crise Ambiental (fundamentos epistemológicos e ontológicos) não se atingirá seu cerne. É cogente o questionamento da lógica da ordem social (a racionalidade do discurso da ordem social) para se reconstruir as teorias sociais. Visto que problemas ambientais não são apenas "fatos emergentes" e nem apenas se  inscrevem nos modos de inteligibilidade das ciências sociais. Problemas Ambientais são verdadeiras aberturas, rachaduras no núcleo duro das epistemologias que sustentaram a modernidade.

Em síntese: a Crise Ambiental pegou o mundo global de surpresa. Seus efeitos se fizeram surtir nos anos 70 do século XX, em especial com Estocolmo (1972), pela qual as ciências sociais deram sinais de reação. Segundo Leff (2016), a crise ambiental não deve ser lida como um mero fato emergente de compreensão das ciências sociais, pois ela (a crise) necessariamente remete aos fundamentos epistemológicos e ontológicos da construção da ordem social. Isto porque a crise ambiental é uma crise civilizatória e irrompeu como um acontecimento (Ereignis) no mundo moderno sob a base da racionalidade tecno-científica e teve como corolário um mundo insustentável. Logo é cogente questionar os métodos de construção e os princípios de validação de todo e qualquer conhecimento científico. É necessário fazer emergir as causas ontológicas, epistemológicas e históricas da crise ambiental a fim de questionar a lógica da ordem social e reconstruir a teoria da questão social, sem com isto se esquecer das condições múltiplas (cósmicas, ecológicas, geográficas, existenciais, etc.) que a fundam.

LEFF, E. A aposta pela vida. Imaginação sociológica e imaginários sociais nos territórios ambientais do Sul. Petrópolis: Vozes, 2016 – Introdução

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