quinta-feira, março 15

UMA FALA SOBRE MARIELLE FRANCO



“A vereadora Marielle Franco foi morta a tiros dentro de um carro na Rua Joaquim Palhares, no bairro do Estácio, na Região Central do Rio, por volta das 21h30 desta quarta-feira (14). Além da vereadora, o motorista do veículo, Anderson Pedro Gomes, também foi baleado e morreu. Uma outra passageira, assessora de Marielle, foi atingida por estilhaços. A principal linha de investigação da Delegacia de Homicídios é execução”.

Não, esta notícia não é da década de 70, durante a Ditadura Militar no Brasil, ela é de 2018, depois que o Governo Temer autorizou a intervenção dos Militares no Rio de Janeiro. Coincidência? Providência divina? Ou mais uma vez a história está nos pregando uma peça? Seja o que for, o fato é que: mais uma vez a história mostra – já que não aprendemos com ela – os prejuízos e as atrocidades da ação militar em uma sociedade.

“Feminista, negra, mãe e cria da favela da Maré”, Marielle Franco, foi a quinta vereadora mais bem votada do Rio de Janeiro em 2016. Embora fosse socióloga e administradora pública, porém, foi a militância contra o feminicídio que garantiu sua subida à Câmara de Vereadores no Rio Janeiro. Hoje, aos 38 anos, deixa uma filha de 20 e uma mancha de sangue na sociedade carioca.

O feminicídio não é uma prática nova, como todos sabem. Desde os primórdios da humanidade, a ideologia do “segundo sexo” foi construída, fundamentada, reforçada, consolidada e naturalizada, a tal ponto, de transformar a violência contra a mulher um “ato natural”. Matar uma mulher é um favor à natureza, à natureza do capitalismo – já que ambos se baseiam na “seleção natural do mais apto”, do mais apto a competir e engolir o concorrente. Agora, matar uma mulher negra e de origem pobre é mais que um favor, é uma obrigação!

O assassinato, a execução, o martírio, o acerto de contas com Marielle, não é apenas um ato individualizado e nem um feminicídio apenas. É um sinal maléfico de tempos escusos. Sua morte é um alerta a todas as mulheres, as negras, às pobres, às esquerdas, às minorias que um novo tempo chegou: o tempo do falo, do rico, do maior, do branco e do dinheiro. É um alerta que, em si, não atinge apenas as mulheres, mas que as colocam como vítimas para reforçar o lugar da qual nunca deveriam ter saído. É o símbolo do velho autoritarismo ignorante, que não tendo espaço na sociedade democrática, se impõe e faz vítima justamente aquela que eles acham ser o maior ponto fraco: as mulheres.

Diante desta atrocidade, assim considerada pela parte mais inteligente que ainda restou em nossa sociedade, queremos nos juntar a estas vozes. Vozes que estão sendo silenciadas uma a uma, pouco a pouco. A voz da rua, a voz do empobrecido, a voz das culturas, a voz da democracia..... Ahhhhh, democracia...!!!! Roubada sem nenhum pudor. Queremos nos juntar aos gritos de justiça enquanto ainda se pode gritar, queremos protestar, enquanto ainda se pode protestar, queremos nos indignar, enquanto ainda se pode fazer isso, pois sabemos que estas palavras – como a própria história já nos ensinou (pobre história.... até tu foste roubada de nossa realidade) – desaparecerão e se diluirão entre baionetas e coturnos.
Nós, da Comunidade da Inclusão, Oblatos Beneditinos, nos juntamos a todos que hoje choram, não apenas pela mártir Marielle, mas por todas aquelas que não muito proximamente terão suas vidas ceifadas, pelos pobres que nem mais tem o direito de ser assim chamado – já que estão abaixo daquilo que a margem da pobreza permite – e todo nosso pequeno povo que ainda pensa e luta contra um aborto, um mundo que nunca deveria ter existido: o mundo de 1964.

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