sábado, julho 28

DEUS NÃO TEM DÓ DE GASTAR!




Introdução

A reflexão de hoje apresenta um dos textos mais tradicionais e ao mesmo tempo mais polêmicos dos evangelhos: a dita ‘multiplicação dos pães’. E então, Jesus multiplicou ou não os pães? Entender o texto a partir desta pergunta é, de alguma forma, empobrecê-lo, ou, pelo menos, não ver outros dados mais importantes. Para piorar a situação, a liturgia apresenta outro texto com o mesmo problema: II Reis 4, 42-44. Isto, de antemão, mostra que Jesus não foi tão original assim, já que o mesmo ocorre com o profeta Eliseu. E agora? Será que o que o texto de João é apenas um plágio do texto de Eliseu? Antes de fazer qualquer tipo de julgamento passemos a análise dos textos.

O livro de Reis (seja o livro I, seja o livro II), pelos estudos exegéticos, é complexo, haja vista que, muito provavelmente, passou por muitas mãos até chegar a sua redação final. Eles, os dois livros dos Reis, procuram relatar crônicas dos reis de Israel e Judá, mas também apresentam, inseridos nestas, fatos ligados aos profetismo. O texto de II Rs 4, 42-44, sugerido para a liturgia de hoje, é um fragmento que faz parte do chamado “ciclo de Eliseu”. Eliseu é uma personagem que aparece no livro dos Reis, é identificado como um profeta que sucedeu a Elias e, segundo os textos sagrados, foi responsável por muitos milagres. Não seria, portanto, estranho a liturgia fazer esta relação entre Jesus e o profeta Eliseu.

O fragmento escolhido para liturgia está colocado no final do capítulo 4 de II Reis e não tem nenhuma relação aparente com o que vem antes e nem depois. É um fragmento provavelmente interposto neste capitulo, pois, do quarto ao sexto, são relatados os milagres de Eliseu. Nos três últimos versículos do quarto capítulo de II Rs (42-44), Eliseu, tal como Jesus, “multiplica os pães”.

Por outro lado, o evangelho apresenta a versão joanina da multiplicação dos pães (já que este relato aparece também nos sinóticos). Ela apresenta este fato muito mais como um dos sete sinais contidos neste livro do que como um milagre. O capítulo sexto faz parte do chamado “Livro dos Sinais” que junto com o Prólogo e o Livro da Paixão formam o evangelho. A multiplicação dos pães é o quarto sinal e está junto com o quinto, que é o caminhar sobre as águas. Assim, para compreender a “multiplicação dos pães” deve-se compreender também o “caminhar sobre as águas”.

Teologia

Feita esta introdução, pode-se agora aprofundar os textos para buscar a mensagem. Os dois textos, Reis e o João apresentam o mesmo elemento: a multiplicação dos pães. Porém, olhando mais de perto, ambos intentam emitir muito mais o significado teológico deste fato, do que o fato em si. Tanto Eliseu quanto o Jesus da tradição joanina apresentam o fato da multiplicação como uma “revelação”. Em II Reis, o autor narra o profeta argumentando ao servo que seu pedido é um mandato do Senhor (II Rs 4,43); em João, o autor explica que o que havia acabado de ocorrer era um “sinal” e, por meio deste, muitos reconheceram Jesus como Profeta (Jo 6,14). Antes de prosseguir, é importante deter um pouco sobre esta ideia de sinal em João.

A palavra sinal, do grego semeion, quer dizer aquilo que “prepara para...” ou está “sinalizando outro”. A ideia é que sinal é “algo que aparece, mas com intenção de mostrar outro”. No caso da tradição joanina, os sinais de Jesus são fenômenos que pretendem revelar o Pai. O Jesus de João é consciente de sua missão como enviado do Pai (Jo 6,6) e o que ele faz não é por merecimento próprio, e sim como revelação daquele que o enviou. Portanto, os sinais são os modos como a tradição joanina compreende a revelação da imagem de Deus por meio de Jesus e não necessariamente milagres. Os sinais são as imagens que o rosto de Deus adquire no evangelho a fim de que o povo conheça do Pai. É um modo humano de dizer quem é o Deus de Jesus.

Com estas explicações, tanto Eliseu quanto o Jesus de João são instrumentos do texto para a revelação de Deus. O texto, em primeira mão, não está preocupado com milagres, ou com coisas sobrenaturais. E a tradição joanina denuncia muito bem essa preocupação transcendente quando relata: “Uma grande multidão o seguia, porque tinham visto os sinais que ele operava nos enfermos” (Jo 6,2). A preocupação da liturgia de hoje, com efeito, parece querer garantir que, por meio de Eliseu e de Jesus de João, Deus se revela. E como se dá esta revelação? Por meio de milagre?

Ambos os textos, pelo visto, submetem uma preocupação básica e originária: a revelação da imagem de Deus, e, para tal, usam um exemplo simples que foi intitulado pela tradição de “multiplicação dos pães”. Porém, o que é mais interessante é que em nenhum momento os dois textos falam de “multiplicação” ou de intervenção de Deus sobre os alimentos. Nem Eliseu, nem Jesus dizem: multiplicai os alimentos! Ambos, na verdade, falam de “distribuição” e de “sacia” (sobra). Ora por que então falamos que estes textos se referem ao milagre de multiplicação? A resposta é simples: estamos acostumados a querer ver Deus na tempestade, como o profeta Elias. Estamos tão acostumados com as tradições judaicas de um “Deus Todo-Poderoso” que aparece na Tempestade que um “Deus Amor” que aparece na Brisa, nós não reconhecemos. Não queremos um Deus fraco!

Este é o ensinamento dos dois textos: se Deus se revela, que imagem teria este Deus? A imagem que ambos pretendem passar, primeiramente, não é a imagem do Deus milagreiro, da multiplicação, mas da distribuição e da sacia. Esta imagem, por seu turno, poderia ser comprometida pelo quinto sinal joanino. Depois de desconstruirmos a imagem do Deus do impossível, vem o Jesus de João, no verso dezenove e complica nossa vida. Logo depois da distribuição dos pães, João vai e me coloca um Jesus “andando sobre o mar” se exibindo para os discípulos.... E agora? Será que o Deus do Impossível está certo e o Deus dos fracos, como diz Nietzsche, foi uma terrível invenção paulina para nos ferrar?

Mais uma vez é importante compreender o texto. O quinto sinal joanino aparece quando os discípulos entram em uma barca e se encontram em uma situação de “medo”. Estão vivendo um momento de turbulência. O que o Jesus de João diz quando ele aparece, “todo todo”, se mostrando para os discípulos? “Sou eu, não tenham medo”. (Jo 6,20) Ora, João mais uma vez, desconstrói a ideia de um Deus Todo-Poderoso. A resposta de Jesus remete ao Deus que fala com Moises na Sarça – Eu sou – e logo em seguida, pede que não tenham medo. Este é o sinal: mostrar que o Deus libertador do Êxodo é o mesmo que se revela em Jesus. Assim como medo da escravidão foi suprimido pela libertação de Javé, o medo dos discípulos deve ser suprimido pelo Abbá!

A analogia é clara, pois o capítulo sexto de João é uma memória da libertação do Êxodo. A distribuição dos pães feita por Jesus, relata o autor, acontece “poucos dias antes da festa da Páscoa” (Jo 6,4). Ora o autor já está fazendo memória da entrega de Jesus em sua última ceia, a qual é também celebrada a libertação do povo judeu da escravidão. Neste sentido, o autor quer mostrar que a celebração da libertação do povo no Egito, do Deus que se identificou a Moises como Eu sou, é a mesma da última ceia, cuja revelação se dá em Jesus por meio da distribuição dos pães na ultima ceia. O Deus de Moisés, o Eu sou, é o Deus de Jesus, o Sou eu. A ceia da libertação é a ceia da distribuição. O problema é que nossa imagem do Deus Todo-Poderoso nos impede de ver que o sinal está na revelação e não no caminhar sobre as águas.

Mensagem

Mais uma vez, O Deus Amor é revelado. E este Deus Amor é revelado nestes textos com duas ideias básicas: distribuir e saciar. A revelação que o autor de Reis e o autor de João querem garantir é que o Senhor é o Deus da distribuição e da saciedade. O que Deus faz, faz com amor para todos, sem distinção e sem pudor de quantidade. O amor de Deus é distribuído com saciedade. Ninguém que faz a experiência do Deus de Jesus fica sem sua graça e esta é dada em abundância. Ambos os textos deixam claro que nosso Deus não tem dó de gastar! Ele não se alia à lógica da economia de hoje, cuja recessão se dá pelo simples prazer dos bancos e dos capitalistas acumularem riquezas. A economia capitalista cria crises pelo simples medo de que seus concorrentes ultrapassem seus bilhões acumulados, dia pós dia. E quem paga essa brincadeira de gato e rato entre os mega-concorrentes bilionários do capital são as classes que não são donas dos meios de produção. Mera ilusão acharmos que votando em Bolsanaro, Ciro Gomes ou Alkimin estaremos conservando nosso patrimônio medíocre de pequeno burguês!

Há quem quer viver com Deus experiências capitalistas. Quer barganhar, que acumular, criar crises para que Deus se curve aos desequilíbrios de nossos mercados espirituais. Quer restringir a graça de Deus para aqueles que, segundo eles, estão em débito. Muita ilusão achar que a graça de Deus segue a nossa medíocre lógica do capital. Pior ainda quem acredita que as religiões conseguem ser melhor que Deus.... Muitos acreditam que as religiões são verdadeiras bolsas de valores, as quais calculam a alta e baixa da graça de Deus por meio de ações que são vendidas nas empresas chamadas Templos.

Eliseu e o Jesus de João hoje revelam um rosto de Deus, talvez, mais próximo de Deus: o Deus da distribuição e da saciedade. Deus não precisa de nós, não precisa de liturgia, não precisa de Igreja, não precisa de mediadores, muito menos de banqueiros. Ele simplesmente distribui, sem pensar em economia, sem pensar se vamos ou não corresponder ou se a distribuição fará a inflação aumentar. Quantas ideologias políticas ficaram ofendidas quando os modelos de política da esquerda abriram os cofres dos bancos para créditos populares.... Somos saciados de Deus todos os dias, pois ainda estamos vivos. Ainda temos natureza e oportunidades para crescer. Se muitos não gozam desse privilégio a culpa não é Deus é por que aprendemos com o capitalismo: queremos privar os outros de toda saciedade divina.

Que o Deus de Eliseu e de Jesus nos ensine a distribuir e saciar a todos, sem querer transformar em donos da graça nem fazer de Deus nosso capital privado. Que a dita passagem da multiplicação dos pães seja conhecida como: a passagem da distribuição dos pães!
Amém!

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